"Toda Nudez..." faz temporada gratuita

Depois da proeza de ter conseguido casa lotada em todas as apresentações no teatro do Sesc Belenzinho - um espaço ainda pouco conhecido do público paulistano -, a montagem de Toda Nudez Será Castigada, de Nélson Rodrigues, dirigida por Cibele Forjaz e protagonizada por Leona Cavalli e Hélio Cícero, reestréia amanhã, em temporada gratuita, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.Cícero interpreta o casto viúvo Herculano, que cai na armadilha de seu irmão Patrício (Gustavo Machado) e vai parar - bêbado e inconsciente - no quarto, e nos braços, da prostituta Geni, brilhantemente interpretada por Leona. A prostituta, por sua vez, é convencida por Patrício a seduzir o viúvo, a quem ele deseja chantagear.Herculano apaixona-se por Geni e, a partir daí, enfrenta antes de mais nada sua própria resistência moral contra essa atração e, depois, a oposição de suas três irmãs solteironas e do também casto filho Serginho (Vadim Nikitin), um menino virgem e obcecado pela memória da mãe morta. Quando tudo parece superado e Geni é aceita pela família, ela apaixona-se por Serginho e estabelece-se um triângulo amoroso, que termina em tragédia."O teatro de Nélson é um teatro com ponto de exclamação", define Cibele. "Inspirei-me muito nas crônicas de Nélson e, numa delas, ele reclamava da linha de objetividade recém-adotada pelos jornais, dizendo que jornalismo de verdade se faz com ponto de exclamação, com manchetes fortes, em vermelho-sangue."Como nas boas crônicas policiais do autor, sentimentos levados ao extremo - desejo, paixão, amor, castidade, ciúme - dão o tom de Toda Nudez. "É um melodrama que acaba virando tragédia", diz Cibele. "E não dá para ficar aquém dessa atmosfera melodramática, muito próxima de um ridículo que é humano ao mesmo tempo."Sem qualquer adaptação no texto, levado na íntegra ao palco, a direção talentosa de Cibele, aliada ao ótimo elenco, consegue recriar a atmosfera de exacerbação dos sentidos proposta pelo autor. E isso sem confundir exaltação com gritos, um entre os muitos méritos da montagem.Cibele ainda fugiu do tradicional palco italiano e concebeu uma estrutura circular - realizada pela cenógrafa e figurinista Simone Mina -, com cenas ocorrendo em nichos situados em cinco extremidades do círculo. O público acomoda-se no centro e nas bordas desse círculo, o que contribuiu para tornar mais próxima e calorosa a relação ator/espectador.Com todo o trabalho da equipe já aprovado por público e crítica no Sesc Belenzinho, o elenco parte agora para uma temporada muito especial. "Realizar essa apresentações gratuitas na Oswald de Andrade é uma oportunidade muito legal de chamar a atenção para um projeto de política cultural maravilhoso, que deve ser mantido e estimulado: as oficinas de residência da Oswald de Andrade."O projeto de residência consiste em abrigar uma companhia teatral cedendo não só espaço para ensaios como um salário para que diretor, elenco e equipe técnica ministrem oficinas. "Sou iluminadora e já dirigi muitas oficinas de iluminação em minha vida", comenta Cibele. Mas é totalmente diferente o aproveitamento de quem faz uma oficina de luz dirigida para a efetiva criação de um espetáculo."Verba - Durante cinco meses, de abril a agosto, Cibele e elenco ministraram oficinas de direção de arte (figurinos e cenários), produção, direção, iluminação, interpretação e trilha sonora, agregando 60 pessoas ao processo de criação do espetáculo. "Essas pessoas não só aprenderam como acabaram enriquecendo demais o trabalho da companhia." O projeto garantiu à companhia uma verba mensal total de R$ 13.800,00."Com esse dinheiro, a companhia pode dedicar-se inteiramente à criação, sem que os atores precisassem ficar correndo atrás de gravar comerciais para sobreviver", diz Cibele. "É um projeto inteligente, que investe na pesquisa, nas pessoas." A temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade amplia ainda mais essa proposta, já que oferece à sociedade uma oportunidade ímpar de conferir, gratuitamente, o - bom - resultado do investimento de uma verba pública.Toda Nudez Será Castigada - Tragédia. De Nélson Rodrigues. Direção Cibele Forjaz. Duração: 1h45. Sábado, às 20 horas; domingo, às 19 horas. Grátis (os convites devem ser retirados com duas horas de antecedência). Teatrinho de Bolso. Rua Três Rios, 363, tel. 221-5558. Até 3/9.

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