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Toda a França cabe em 'Três Mundos'

Atores falam sobre o caráter social do filme de Catherine Corsini

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2013 | 02h08

Clotilde Hesme não mede as palavras - a atriz de Christophe Honoré (em Canções de Amor e A Bela Junie) resume o pensamento de boa parte do meio cinematográfico francês em relação à Palma de Ouro para Abdellatif Kechiche, por A Vida de Adèle. A Palma do sofrimento veio recompensar a tirania de um autor que é humanista na tela, mas um monstro no set. 'Abdel', como é chamado, submete seus artistas e técnicos a jornadas que extrapolam qualquer convenção de trabalho. "Eu não conseguiria."

O repórter brinca com ela - isso é recalque, quando não ressentimento. "Mais non." Clotilde integra o elenco de Três Mundos. O filme de Catherine Corsini estreou na sexta passada, dois dias após as entrevistas de Clotilde e Raphaël Personnaz, que faz o protagonista masculino. Os encontros ocorreram no lobby do Grand Hotel Intercontinental, na Opéra, em Paris, entre um café e outro. Ali foram rodadas cenas com Sophia Loren e Marcello Mastroianni de Pret-à-Porter, de Robert Altman. Clotilde faz a alter ego da diretora.

Três Mundos conta a história de um homem (Raphael) que comete um atropelamento e foge, sem prestar socorro à vítima. Há uma testemunha - Clotilde - que terminará sendo a ligação entre o atropelador e a mulher do atropelado. Cada uma dessas figuras representa um mundo e o confronto entre os três proporciona ao filme uma riqueza muito grande. Três Mundos pode ser visto quase como um ensaio sociológico sobre a divisão social na França de François Hollande, pós Nicolas Sarkozy.

"Meu personagem, Al, é o típico representante do egocentrismo dos novos donos do capital", diz Personnaz. "Não é um mau sujeito, mas está para se casar com a filha do dono da firma e isso vai consolidar sua posição na empresa. Pressionado por amigos que estão no carro, ele foge para não se complicar. Não o defendo, só procuro entendê-lo." O filme inspira-se num fato ocorrido com a diretora, que foi atropelada na pré-adolescência, e o atropelador também fugiu. "Catherine só me disse isso depois, e foi melhor. Acho que, mesmo inconscientemente, teria representado o papel de forma diferente, se soubesse."

E como teria representado? "Procurei tornar o personagem real, agir e pensar como ele. Teria sido mais difícil me colocar na sua pele." Clotilde representa a "bo-bo". O que é isso, pergunta o repórter. "É uma burguesa boêmia, bourgeoise bohème. Catherine é uma bo-bo, Clotilde também", continua Personnaz. "Seria difícil não ser, no meio artístico", avalia Clotilde. "Moro bem, não ganho fortunas mas vivo acima da média e, como todo artista, tenho uma vida pouco convencional." Não é por sua vida ser confortável que o bo-bo abre mão da consciência. "A direita é que tenta nos desacreditar", diz a atriz. A mulher da vítima representa o lado fraco dessa história toda. "Catherine (Corsini) criou o que não deixa de ser um teorema para discutir a sociedade francesa, mas nosso filme não é a mera ilustração de uma tese. Tem valor ético, estético", garante Personnaz (e está certo).

A curiosidade é que, neste momento, está de volta ao cartaz, em Paris, A Morte de Um Ciclista, de Juan António Bardem (tio de Javier), dos anos 1950, que radiografa a sociedade espanhola sob o franquismo, também a partir de um atropelamento seguido de fuga. "Já me falaram do filme, mas ainda não vi", revela Personnaz. "Catherine não nos escravizou", diz Clotilde. A atriz de teatro e cinema está superfeliz com a próxima montagem. Vai fazer um Shakespeare (Noite de Reis), com Patrice Chéreau.

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