Toda a dor do mundo no olhar

Planeta dos Macacos: A Origem propõe dois filmes que dialogam por meio do ator que você não vê

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

Podem-se enumerar grandes (as maiores?) revoluções do cinema - a escadaria de Odessa, no clássico O Encouraçado Potemkin; as câmeras portáteis, com som direto acoplado, por volta de 1960, das quais surgiu quase toda a nouvelle vague; o assassinato na ducha em Psicose - e o Gollum criado em computador, com base nos movimentos de um ator, no primeiro episódio da série O Senhor dos Anéis. O ator em questão era Andy Serkis e ele volta como "César" em Planeta dos Macacos: A Origem. Como seria mais fácil a vida dos críticos, se o cinemão de Hollywood não insistisse em ser, volta e meia, mais inteligente do que a maioria do cinema vendido como "de autor".

Em princípio, o nome do diretor Rupert Wyatt não significa muito (nada?) para a maioria do público. Mas ele é um dos fundadores da Picture Farm, um coletivo de cineastas que, em Londres e Nova York, tem colecionado prêmios. Wyatt assumiu (e venceu) o desafio de dar origem a uma série mítica. O primeiro Planeta, de 1968, é contemporâneo de 2001, Uma Odisseia no Espaço e, embora a ficção científica de Stanley Kubrick seja mais filosófica, a de Franklin Schaffner marcou época como espetáculo de ação e crítica a uma mentalidade militarista que ameaçava destruir a vida na Terra.

Vale lembrar que a origem do primeiro Planeta está num livro de Pierre Boulle, que os roteiristas Michael Wilson e Rod Serling adaptaram com bastante liberdade. O quinto exemplar, A Batalha do Planeta dos Macacos, de J. Lee Thompson, de 1973, com o reforço de John Huston no elenco, forneceu elementos incorporados no filme de Wyatt, mas seria um erro considerá-lo um remake - como o desastroso, apesar da cenografias impressionante, Planeta dos Macacos de Tim Burton. A Origem, na verdade, contém dois filmes, mas eles só se articulam no desfecho.

Um acompanha os esforços do cientista James Franco, que cria uma droga pensando em minorar a deterioração cerebral de seu pai, vítima de Alzheimer. A droga, aplicada num filhote de chimpanzé - "César" -, vai produzir mais do que uma mente excepcional. César vai chegar a falar, e o domínio da palavra, como elo que une e articula os homens - o cinema de Kubrick fazia o movimento inverso, de sua dissolução -, vai lhe permitir liderar os macacos na batalha final de Planeta dos Macacos: A Origem. Só que isso não vai explicar como os macacos chegaram a dominar o mundo. Isso, o que explica é o "outro" filme.

A droga criada por Franco pertence à indústria farmacêutica, que só pensa em lucro. O conglomerado, por meio de seus agentes, ignora os riscos - e a droga tem efeitos secundários danosos sobre os humanos. Produz uma epidemia. Ao velho Planeta, superpõe-se Extermínio, de Danny Boyle. Isso remete ao filme antigo, quando o astronauta Charlton Heston, ao descobrir onde estava, lançava seu grito - "Eles conseguiram!". Eles, em 1968, eram os militares. Hoje o mundo mudou e, embora a indústria da guerra continue forte, a dos medicamentos tem a cara desse novo mundo global.

A outra remissão ao filme antigo - afinal, trata-se da "origem" - está na cápsula espacial que aparece no noticiário de TV. Dela sairá, mais tarde, o personagem de Heston, mas, para o diretor Wyatt a ênfase está na relação de James Franco e da mulher com "César". Ela adverte que o marido está brincando com fogo ao tratar César como filho. César, num determinado momento, vai se sentir traído e abandonado. E vai reagir. Toda a evolução desse extraordinário personagem é feita através do olho de Andy Serkis. Não há nada, aqui, de burocrático. Rupert Wyatt viu O Garoto Selvagem, de François Truffaut, e Greystoke, A Lenda de Tarzan, de Hugh Hudson. Absorveu o melhor desses filmes raros. Andy Serkis, o mais desconhecido dos grandes atores, vira de novo macaco - foi o rei Kong - e expressa, mais uma vez, como só ele sabe fazer, a dor do humano.

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