Toda a diversidade dos latinos

Evento que começa hoje no Memorial mapeia a produção da região; são 137 filmes de 15 países

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2010 | 00h00

Tradição. Festival traz produções recentes e muitas inéditas, garimpadas pelos curadores Francisco César Filho e Jurandir Müller, como 'Água Fria do Mar' (foto), de Paz Fábrega, da Costa Rica

 

 

Era o tema do recente Ao Sul da Fronteira, de Oliver Stone - o sonho bolivariano, representado por alguns presidentes, de uma América nuestra e unida. Você os conhece, esses personagens. Um é ridicularizado, o outro, acusado de demagógico e autoritário, mas o conceito transcende a folclorização. É sério e forte. Uma (con)federação latino-americana para selar a união de todos, no concerto das nações? A 5ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano que começa hoje é um pouco imbuída do mesmo desejo. O "mercado" brasileiro é formatado para a produção de Hollywood, mal abriga a produção nacional, que dirá a latino-americana. Mas existe público, e existem filmes. A vitória de O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella, no Oscar, e o sucesso de público do filme pequeno, mas bom, confirmam que há interesse, curiosidade - usem a definição que quiserem -, para esta produção.

Mas falta espaço e é para preencher uma lacuna que o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo recomeça hoje no Memorial da América Latina. Já virou tradição no calendário cultural da cidade - julho traz este evento importante, que este ano exibe 137 filmes de 15 países e homenageia dois autores, o brasileiro João Batista de Andrade e o argentino Marcelo Piñeyro. O Memorial fornece o cenário principal, de abertura e encerramento, e também é ponto de encontro para mesas redondas e conferências, mas o festival se espalha por mais cinco salas. Até domingo, você só tem de escolher os filmes, montar sua grade. E nem é preciso pagar - as sessões são grátis.

O Festival Latino divide-se em seções - a Mostra Contemporâneos, com um total de 24 títulos, reúne a produção recente, garimpada pelos curadores Francisco César Filho e Jurandir Müller, e é formada por filmes na maioria inéditos no País, assinados por autores como o argentino Daniel Burman (Dois Irmãos), o chileno Miguel Littín (Dawson, Isla 10) e o uruguaio Pablo Stoll (Hiroshima, leia abaixo), além de diretores que você vai descobrir agora, de países como Equador, Paraguai, Peru e Porto Rico. De Cuba virá uma das atrações anunciadas da mostra - como uma espécie de resposta ao clássico Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutierrez Alea, Memórias do Desenvolvimento baseia-se em outro livro do mesmo autor, Edmundo Desnoes, com direção de Miguel Coyula.

Dois outros títulos desta seção antecipam-se imperdíveis. Ambos alcançaram grande repercussão em Roterdã e compartilham o mesmo cenário, ou paisagem. Água Fria do Mar, que abre hoje o festival para convidados, é considerado o marco zero da nova produção costa-riquenha. A própria diretora Paz Fábrega virá apresentar seu filme sobre um casal que, na noite da virada de ano, parte numa viagem ao Pacífico. Eles encontram uma menina que fugiu de casa, e pela manhã ela desapareceu. O estreante mexicano Pedro González Rubio ganhou o prêmio do júri em Roterdã e o da crítica em Toulouse com Ao Mar, sobre pai e filho de ascendência maia, que partem numa viagem ancestral em direção ao mar. Do Uruguai vem ainda uma novidade - o filme de terror A Casa Muda, de Gustavo Hernandez, que acompanha, em tempo real (74 minutos), um grupo que vai ser assassinado na casa do título.

A mostra Contemporâneos/Brasileiros traz dois vencedores do Festival de Tiradentes, hoje a principal vitrine da produção autoral/experimental no País. São road movies. A Fuga da Mulher Gorila, de Felipe Bragança e Marina Meliande, venceu no ano passado. Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Pedro Diógenes e Luiz e Ricardo Pretti, ganhou este ano. Mas existem outras atrações que devem estar na mira dos cinéfilos. A consolidação da Retomada na região, no período entre 2000 e 2009, será objeto de uma retrospectiva específica, com filmes de Fabián Bielinsky (Nove Rainhas), Lucrecia Martel (O Pântano), Alfonso Cuarón (E Sua Mãe Também), Pablo Trapero (O Outro Lado da Lei), Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) etc. Finalmente, os homenageados. João Batista de Andrade e Marcelo Piñeyro. Ambos buscam diferentes formas de encarar a questão política. O primeiro, de forma mais direta, em documentários e ficções (Liberdade de Imprensa, Doramundo, O Homem Que Virou Suco, A Próxima Vítima e a obra-prima Wilsinho Galiléia). O outro, mais indireto, enfoca o momento histórico por meio de estudos de personagens ou grupos (Cinzas do Paraíso, Plata Quemada e Kamchatka). Piñeyro dá a aula magna do Festival Latino deste ano.  

   

FESTIVAL LATINO AMERICANO  

Cinemateca Brasileira. Lgo. Senador Raul Cardoso, 207, 3512-6111. Grátis.

Cinesesc. R. Augusta, 2.075, 3087-0500. Grátis.

Cinusp. R. do Anfiteatro, 181, 3091-3540. Grátis.

Memorial da América Latina. Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3283-4757. Grátis.

MIS. Av. Europa 158, 2117-4777. Grátis.

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