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Títulos e privilégios

A pompa da investidura revela a consciência dos cargos pois não se chega a ‘Sir’ por simpatias

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 03h00

“Ao alcançar o centro do recinto, o iniciante volta-se então para a Rainha e os Tronos e caminha para dentro do espaço ritual. Ele então se ajoelha, apoiando-se em uma banqueta diante da Rainha, que está de pé sobre a plataforma, em um plano um pouco mais elevado. A Rainha toca o Cavaleiro ajoelhado em cada ombro com o lado chato da Espada do Estado, nomeando-o; ele se levanta; ela passa a fita da Ordem do Cavaleiro em torno de seu pescoço (isto também é outra inovação recente); eles apertam as mãos; a Rainha diz alguma coisa apropriada a cada um dos iniciantes; o iniciante inclina-se, recua andando para trás até sair do espaço ritual, e depois sai para a esquerda. O iniciante então caminha até a parte de trás para se reunir ao público.” 

É assim que meu ilustre colega Edmund Ronald Leach, de Cambridge, falecido em 1989, descreve e analisa a cerimônia do seu investimento como “Sir”, provando como a antropologia social pode ser um instrumento de entendimento de nossa própria vida social. Aliás, eu assisti a essa mesma conferência numa reunião da Sociedade Americana de Etnologia, realizada em Louisiana, EUA, em 1983. 

Esse trecho da análise do “rito de mérito” que transforma um cidadão num “Sir”, nos quadros de honraria do sistema inglês, foi motivado pelo que viveu Lewis Hamilton, o consagrado automobilista quando ele também passou de celebridade a “Sir”, pois uma das consequências desse aristocrático papel é que, de agora em diante, o protocolo obriga a chamá-lo de “Sir Lewis”, deixando de usar o seu nome de família.

Em outras palavras, o piloto negro e anônimo, cujo talento o tornou um supercampeão, é agora alguém com quem você sabe com quem está falando oficialmente! Ele não precisa reiterar seu mérito, pois o sistema social inglês distingue cuidadosamente entre suas celebridades as que serão honradas como “cavaleiros” (Sir) e não precisam autorritualizar-se usando o nosso “você sabe com quem está falando?”.

Aliás, a pompa da investidura revela a consciência do valor dos cargos, pois não se chega a “Sir” por meio de simpatias filiais e legalísticas, já que a realeza britânica combina - como assinala Leach - a hierarquia monárquica, como um símbolo da soberania nacional, com o duro realismo da democracia parlamentar. 

O ritual de investir uma pessoa no primeiro nível da fidalguia - antigamente o título de “Sir” era concedido por bravura - é criticado nas repúblicas porque, numa eleição, nada garante (e nós estamos fartos disso!) que o eleito tenha consciência plena do seu papel.  

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