Titanus, ou uma breve história do cinema italiano

A trajetória da lendária produtora fundada por Gustavo Lombardo, responsável por obras-primas da sétima arte

FLAVIA GUERRA , O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h27

O Leopardo, Sodoma e Gomorra, Dois Destinos, Rocco e Seus Irmãos, Duas Mulheres, A Moça com a Valise, Pão, Amor e Fantasia, As Amigas, Casanova, O Sol por Testemunha... O que filmes tão diversos, dirigidos por mestres como Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Valerio Zurlini, Luigi Comencini e Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, René Clément, têm em comum, além de sua genialidade? A marca de uma das mais lendárias casas de produção da história do cinema: a Titanus.

Fundada em 1904 pelo napolitano Gustavo Goffredo, com o primeiro nome de Monopolio, a Titanus ainda funciona e produz hoje principalmente filmes para a TV italiana, mas detém o título de a casa de produção mais antiga do mundo. "Nós somos a única em que a família sempre foi a mesma. Avô, pai e filho. E é bonito ver e rever nossos filmes. Sempre me emociono", declarou Guido Lombardo, neto do fundador Gustavo Lombardo, ao Estado, durante o Festival de Cinema de Locarno 2014, quando a Titanus foi alvo de uma retrospectiva inédita de sua produção e Guido recebeu o troféu Pardo de Ouro.

Para completar, a casa de produção ganhou um livro Titanus - Crônica Familiar do Cinema Italiano, que foi lançado durante o festival. Fruto da parceria entre o Festival de Locarno, o Centro Sperimentale di Cinematografia de Rome e a editora Edizioni Sabinae, o volume tem edição de Sergio M. Germani, Simone Starace e Roberto Turigliatto.

Além de conter artigos sobre as diversas fases e produções, o livro ainda conta com dezenas de fotos históricas e uma rara edição bilíngue em italiano e inglês. Ainda que sem data certa, há planos de lançar em breve Titanus no Brasil. "A Titanus equivalia à garantia de um espetáculo fílmico que tocava as cordas de emoções diversas, mas que sempre continha uma qualidade particular de trazer entretenimento e, ao mesmo tempo, a poética dos autores", afirmou o diretor da Fundação Cinemateca de Bolonha, Gian Luca Farinelli.

É exatamente a capacidade de acompanhar sem preconceito, mas com paixão pelo fazer cinematográfico, as movimentações do povo italiano, suas mudanças sociais e políticas e, ao mesmo tempo, valorizar e apoiar o cinema de arte e experimental que garantiram o sucesso e a relevância histórica da Titanus. "Em sua lista de filmes, diretores, roteiristas e elenco, se percorria a geografia do cinema dos anos de ouro e a diversidade de formas narrativas e de espetáculo. Esta diversidade era a riqueza do próprio cinema daquelas décadas. Um cinema profundamente radicado na cultura e na vida italiana, mas inserido no panorama europeu e mundial", completou Farinelli.

Ainda que atualmente a casa esteja longe da nova e premiada safra do cinema italiano, como A Grande Beleza, que deu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano a Paolo Sorrentino, é preciso fazer justiça e ter em conta que sem a paixão e o empenho de Gustavo e de seu filho Goffredo, que assumiu a empresa quando seu pai morreu, em 1951, o cinema hoje seria outro.

Foi, aliás, sob a gestão de Goffredo que a Titanus foi praticamente à bancarrota no final dos anos 60, depois de apostar em duas produções que à época pareciam loucura, mas hoje são obras-primas do cinema mundial: Sodoma e Gomorra,de 1962, e a super produção O Leopardo, de 1963, "Mas valeu a pena. O Leopardo, tão controverso e importante, é o filme preferido do meu pai. Tudo foi feito com emoção. Nosso estilo sempre foi o amor pelo que fazemos", conclui Guido.

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