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Titanic sem naufrágio

Você pode achar que é literatice da minha parte, e talvez seja mesmo, mas o fato é que não entro neste hotel sem que me venha, antes até do pressuroso carregador de malas, o decassílabo de Raimundo Correia: "Aqui outrora retumbaram hinos".

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h05

O poeta maranhense não se referia, é claro, ao Grande Hotel de Araxá, pois "desobjetivou" (assim gostava de dizer o Vinicius de Moraes) mais de trinta anos antes da inauguração, com Getúlio Vargas e tudo, em abril de 1944. E os outros 13 versos do soneto célebre nada têm a ver com este hotel. Não há notícia de "coche real" que tenha, "nestas calçadas e nestas praças, hoje abandonadas", rodado "por entre os ouropéis mais finos" - e muito menos de "arcos de flores, fachos purpurinos, / trons festivais, bandeiras desfraldadas, / girândolas, clarins, atropeladas, / legiões de povo, bimbalhar de sinos". Nem há aqui, benza Deus, "arcarias negras", "torreões medonhos" e "lájeas frias" onde "alguém se assenta".

Mesmo assim, não tenho dúvida de que no septuagenário Grande Hotel de Araxá retumbaram hinos. É desses lugares que dão a você a impressão de ter chegado com décadas de atraso, já longe o tempo em que retumbavam, senão hinos, aos menos foxtrotes e boleros. Por breves dois anos, ouviu-se aqui também o retinir seco de fichas de jogo, antes que em 1946 o presidente Eurico Dutra, dizem que para satisfazer a mulher, dona Santinha, acabasse com o jogo no Brasil.

E o fez, devo reconhecer, com mais êxito que meu bisavô Francisco Furquim Werneck, quando este, prefeito do Distrito Federal nos começos da República, decretou o fim do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Sim, vovô viu o vício e vociferou. Nunca mais se apostou dentro do Jardim Zoológico da antiga capital da República. O problema é que a modalidade de contravenção bolada pelo barão de Drummond cruzou os portões a que estava circunscrita e, desinibidamente, se esparramou pelo país inteiro.

Numa penada, o presidente decretou a inutilidade de cassinos que haviam justificado a construção de grandes e suntuosos hotéis como o Quitandinha, em Petrópolis, e este de Araxá, no Triângulo Mineiro. A crer em muita gente, santinha ou não, a Família Brasileira, já não lhe bastasse a roleta matrimonial, esteve ameaçada também pelo jogo propriamente dito.

Foi uma encrenca mortal para o empreendedor mineiro Joaquim Rolla, concessionário deste e de vários outros templos da jogatina, a começar do pioneiro cassino da Urca, no Rio. A história, que por certo valeria filme, está bem contada em O Rei da Roleta - A Incrível Vida de Joaquim Rolla, de João Perdigão e Euler Corradi. Silenciemos sobre óbvias piadas de mau gosto suscitadas pelo sobrenome do personagem. Limitemo-nos à manchete do Binômio, jornal oposicionista de Belo Horizonte, quando de uma viagem do governador Juscelino Kubitschek, em 1952: "JK foi a Araxá e levou Rolla".

Foram outros os propósitos, me apresso em esclarecer, que nos trouxeram ao Grande Hotel, eu e os demais participantes do Fliaraxá, vitorioso festival literário criado pelo produtor cultural Afonso Borges, emplacando agora a terceira edição. Restaurado, o enorme conjunto em estilo missões, com suas termas dignas de Roma Antiga, me é familiar desde a adolescência, quando passava férias em Araxá - não no então inabordável Grande Hotel, mas no vizinho Colombo, que já não existe. Descia todos os dias, disposto, confesso, a me fazer passar por hóspede de hotel de ricos.

Hoje tem de tudo aqui, desconfio que até ricos. Com suas vastidões e seus materiais nobres, o prédio impressiona. Hóspede de primeira viagem, o Marcelino Freire viu nele, imponente, iluminado, povoado de inocentes, um Titanic prestes a topar com aquele iceberg. O Santiago Nazarian deve ter imaginado que tragédia semelhante estava em curso: acordou de madrugada, em meio a um apagão, e, ao botar os pés fora da cama, deu com o piso inundado por um vazamento. Em braile, às apalpadelas, desceu à recepção e reclamou apartamento menos irrigado. Não lhe recomendaram o sexto andar, onde já se observou um trânsito de fantasmas. Ali outrora, além de retumbarem hinos, correntes se arrastaram. Para mim, problema nenhum. Ainda nem fiz check out, e já não vejo a hora de fazer check in.

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