Tirando o pó de uma joia do suingue

O épico vinil Di Melo, de 1975, ganha reprensagem à altura de sua importância

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h09

Não há superlativo que exagere o poderio rítmico do primeiro e único disco lançado por Roberto Di Melo. Gravado em 1975 - o álbum que virou objeto de desejo de colecionadores de vinil nos últimos anos, e ganhou esta semana uma impecável reprensagem pelo selo Brasilis Grooves -, é nada menos que uma obra-prima de puro veneno afro-tupiniquim, cuja essência suingada resume, assim como os volumes de Tim Maia Racional, e o clássico África Brasil, de Jorge Ben, o modo inconfundivelmente brasileiro com que os músicos do País recriavam o funk americano, nos anos 70.

Vide a letal levada de Pernalonga, sétima faixa do disco, em que a cozinha toca algo que parece funk, mas está a dois palmos de um afoxé, a três de um samba, além de ser acompanhada por um contrabaixo denso, que põe umidade tropical no ritmo de James Brown. Isto sem falar da síncopa malandra de Di Melo em sua interpretação das faixas do disco, sem falar de sua criatividade poética ("Minha estrela, vi tua imagem refletida em meu espelho, parei no ar com teu jeitão frio e matreiro, e fiz voltar o teu sorriso prateado"), e sem mencionar o time de craques que tocaram e produziram. Entre eles, Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, um parceiro de Astor Piazzolla no bandônion (cujo nome foi esquecido), o fera dos arranjos José Briamonte, Dirceu Batera e Milton Banana na bateria. Nada menos que um Barcelona do suingue brasileiro. 4 a 0, fora o baile.

Eis o primeiro ato do drama do pernambucano Roberto Di Melo, artista completo, que teve tudo para entrar para a história como um dos gênios da cultura popular brasileira, mas caiu no ostracismo, e hoje em dia leva uma vida simples no bairro do Rio Pequeno, em São Paulo, batalhando para um aqui e outro ali como marchand de quadros.

No terceiro ou quarto ato entra o mutirão de jovens que redescobriram Di Melo desde que DJs de vinil voltaram à cena, a internet tornou-se um infindável arquivo de raridades fonográficas e a primeira faixa do disco, Kilariô, começou a ser tocada nas baladas universitárias de São Paulo. Di Melo virou documentário (Di Melo - O Imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro), voltou a tocar (com a banda Pé Preto) e tem agora um dos ápices de sua renascença com a reedição em vinil do raríssimo disco de 1975, lançada pela gravadora Brasilis Grooves e disponível pelo site www.vinilearte.com.

Resgate. Ao centro da iniciativa está o DJ Bruno Niggas, aficionado do vinil, que integra o coletivo Vinil É Arte e só toca LPs e compactos em suas discotecagens. A intenção é resgatar a música de nomes que definham na memória popular e, ao mesmo tempo, dar uma força para os que ainda estão vivos. "Imagina o Di Melo. Todo mundo bate na porta dele. Faz um som com ele, tira uma foto. Mas ele não ganha nada com isso", explica. Por isso, o DJ fez um contrato em que o artista ganha metade da renda dos vinis, ao contrário de receber direitos autorais de sua editora através de um processo burocrático que pouco favorece os artistas. Isto é parte de um plano maior que tem o intuito de reeditar clássicos menos conhecidos dos anos 70, como Edson Frederico, Noriel Vilela, João do Vale, e raridades de Marcos Valle. "Muitos destes que ainda estão vivos levam uma vida completamente marginal", conta Bruno. "O Paulo Diniz (cantor pernambucano) está na Bahia, largado. O Edson Frederico, que gravou várias raridades, está quase morrendo em um asilo para artistas no Rio", diz.

O caso do Di Melo é motivo de otimismo para colecionadores e interessados pela MPB em geral. De acordo com lojistas, o disco era carne de vaca nos anos 90, e era vendido por R$ 15 ou R$ 20. Foi quando colecionadores europeus, americanos e japoneses começaram a se interessar pelo funk soul brasileiro e acabaram levando a maioria das cópias desta e de outras raridades para o exterior. Um original, hoje em dia, sai por volta de R$ 600 (os da primeira leva da reprensagem saem por R$ 100).

Para reeditá-lo, Bruno suou. Conversou com advogados. Conseguiu comprar as fitas originais da EMI. Xavecou os donos da editora que controla os direitos de Di Melo para que liberassem o lucro do disco para o artista. Montou uma gravadora. Firmou parceria. E, enfim, conseguiu reprensar o disco através de uma fábrica na República Checa.

É um dos marcos do esforço de Di Melo para voltar à ativa. Mas o músico também não é isento de culpa por seu esquecimento. Depois das boas vendas do disco, em 1975, Di Melo bateu de frente com a gravadora EMI Odeon, rescindiu o contrato e gastou o dinheiro na botecagem. "Eu era muito jovem", conta o próprio, em entrevista ao Estado. "O disco vendia bem, não ficava nas prateleiras. Eu compunha com o Jair Rodrigues. Tenho 12 inéditas com o Geraldo Vandré. Mas me desanimei quando fui buscar meu cheque de royalties e me pagaram 11 cruzeiros. Tinha de tocar em boates e ficava nessa de manha, macanha, maranha, mumunha e tramoia, trabalhando em tudo que é casa de São Paulo. Balacobaco. Telecoteco. Igrejinha. Lapinha...", completa Di Melo, no linguajar rítmico e inventivo com que costuma dar entrevistas. A noite tornou-se desgastante. "Acabava bebendo, me drogando, e fui perdendo o tesão até sair de cena e começar a trabalhar com quadros", conta o músico, que passou os anos 80 e 90 gravando discos de produção amadora e chegou a ser dado como morto pelos colegas (daí o apelido de "imorrível" inventado pelo próprio).

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