Leonardo Lara/Divulgação
Leonardo Lara/Divulgação

Tiradentes premia o filme os residentes

Mostra, que terminou no sábado à noite, consagra Tiago Mata Machado

Luiz Carlos Merten TIRADENTES, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

Havia bons filmes concorrentes na Mostra Aurora - hoje, a principal vitrine da produção de cinema de invenção no País -, mas o júri jovem e o da crítica convergiram em selecionar Os Residentes, de Tiago Mata Machado, como o grande vitorioso da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O evento terminou sábado à noite, depois de mais de uma semana de homenagens, debates e projeções. O diretor mineiro mal terá tempo de saborear o sucesso. Mata Machado embarca em seguida para a Europa, onde Os Residentes integrará a programação do Fórum no Festival de Berlim, que começa dia 10.

O melhor longa do júri popular foi Solidão e Fé, de Tatiana Lohman, exibido no Cinema da Praça, ao ar livre. O tempo colaborou. Criada pela Universo Produção há 14 anos, a Mostra de Tiradentes consolidou seu prestígio nacional e internacional nos últimos quatro anos justamente com a Mostra Aurora, que tem curadoria de Cleber Eduardo. A Universo abriu essa importante janela para novos realizadores que buscam desenvolver outra linguagem para o cinema brasileiro. Experimental, de invenção, deem o nome que quiserem. Os jovens querem expressar na tela seu mal-estar. Fazem um cinema geracional, mas não reducionista. Na tentativa de se entender - e entender o mundo - buscam novas linguagens.

Mas Tiradentes não se fecha a outros tipos de cinema, nem ao mal falado cinema de mercado. A mostra presta homenagens - este ano, ao ator Irandhir Santos e ao diretor Paulo Cezar Saraceni - e, por isso mesmo, o espectro das projeções contemplou até o maior fenômeno de bilheteria da história do País, Tropa de Elite 2, de José Padilha. Embora tenham passado rapidamente pela cidade, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e a secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, não chegaram a discutir as grandes questões da cultura nem do cinema, especificamente. Mas os debates - estéticos e políticos - foram ricos e foi tirada a Carta de Tiradentes, lida na sexta-feira à tarde pelos atores Irandhir Santos e João Miguel.

Assinada por entidades e autores, a Carta visa garantir um espaço para o cinema de experimentação, que Tiradentes celebra. Assim como esse cinema encontrou o canal na iniciativa da Universo Produção, também necessita de incentivo para chegar ao mercado. Mesmo que Os Residentes, o vencedor deste ano, não vá fazer o público de Tropa 2 - os fabulosos 11 milhões de espectadores -, é um filme que atinge um segmento e precisa ser contemplado. O apoio à distribuição e exibição de filmes pequenos, autorais, foi um tema premente em Tiradentes.

Os Residentes concorreu em Brasília, no fim do ano. No debate em Tiradentes, o diretor lembrou que, a título de apresentação, havia dito em Brasília que era autor de uma tese sobre Jean-Luc Godard. Pronto, bastou para que seu filme e ele fossem rotulados como "subgodardianos". Não é o caso e Os Residentes sai agora aureolado de Tiradentes para tentar seduzir plateias internacionais em Berlim.

O VENCEDOR

Existe, sim, algo de Godard em Os Residentes - mais de Tempo de Guerra (Les Carabiniers) do que de A Chinesa. A história trata de um grupo que se instala numa casa, que no final será destruída, para viver uma utopia. Ética, estética, política - Tiago Mata Machado e seu elenco criam cenas que, desde logo, se inscrevem como momentos antológicos do cinema brasileiro. Mas o que marca o filme é a invenção. Mais do que com Godard, ele talvez dialogue com a vanguarda russa, o que vai depender do espectador. A riqueza sonora, o trabalho com a cor, a visceralidade das interpretações, a indagação sobre o casal contemporâneo, tudo é forte em Os Residentes, que, finalmente, encontrou um júri à altura da sua complexidade.

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