Tiradentes põe na tela inquietação política

Tiradentes põe na tela inquietação política

Cada (grande) festival de cinema brasileiro possui uma característica própria. O de Brasília, à sombra do poder, tem a fama de ser o mais político. Gramado tenta mudar o eixo, substituindo o glamour do tapete vermelho por um compromisso maior com o cinema de autor, não só brasileiro mas latino-americano. Recife aposta no público. E Tiradentes? A mostra que começa hoje na cidade histórica mineira já se consolidou como o espaço da inquietação do novíssimo cinema brasileiro.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Inquietação política, por certo, mas a mostra Aurora, menina dos olhos de Tiradentes - com curadoria de Cleber Eduardo -, tem deixado claro que não existe renovação da política sem renovação da forma. Por conta disso, todos os caminhos da transformação estética do cinema no País passam por Minas e por Tiradentes. A mostra segue até o próximo fim de semana, quando serão anunciados os vencedores dos prêmios do júri e do público.

O júri oficial contempla os filmes da tenda, os da mostra Aurora. O público faz suas escolhas entre os filmes exibidos na praça central. Entre esses dois espaços, Tiradentes contempla outras manifestações. Mostrinha, mostra Olhares (com filmes premiados em outros festivais), Foco (de curtas, com curadoria de Cleber Eduardo e Eduardo Valente), Vertentes (com filmes também exibidos em outros festivais, mas não premiados como os da seleção de Olhares). No total, serão exibidos 134 filmes. E ainda existem os debates. Este ano serão cinco, todos temáticos e com a participação de diretores como Cacá Diegues, Cláudio Assis e Julio Bressane.

Todo ano a mostra presta homenagens. O grande homenageado de 2011 será um diretor ligado à explosão do Cinema Novo, há meio século. Paulo César Saraceni será homenageado justamente por seu documentário Arraial do Cabo, considerado uma das pedras de toque do movimento. Ele apresentará hoje, na abertura da mostra, seu novo longa, O Gerente, adaptado de um romance de seu irmão Sérgio, "baseado na nossa família", como ele diz. Ao longo da semana, serão reprisados seus filmes mais importantes - Porto das Caixas e A Casa Assassinada, que ele adaptou do romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.

Outro homenageado - o ator Irandhyr Santos, de poderosa presença no novo campeão de bilheteria do cinema brasileiro, Tropa de Elite 2, de José Padilha. Tudo isso garante excepcional interesse à Mostra de Tiradentes como um todo, mas a quarta edição da mostra Aurora é a que desperta maior expectativa. São cinco documentários e duas ficções de Minas, São Paulo, Rio e Pernambuco. Os filmes são - Enchente, de Júlio Pecly e Paulo Silva; Riscado, de Gustavo Pizzi; Remições do Rio Negro, de Erlan Souza e Fernanda Bizarria; Sertão Progresso, de Cristian Cansino; Santos Dumont - Pré Cineasta?, de Carlos Adriano; Vigias, de Marcello Loudello; e Os Residentes, de Tiago Mata Machado, que também integra a seleção oficial de Berlim (em fevereiro), na seção Fórum.

No texto de apresentação da mostra Aurora, o curador Cleber Eduardo explica suas escolhas - "Há uma tentação de se ver nesses sete filmes um reflexo geracional, embora, a princípio, seja apenas um recorte de sete realizadores contemporâneos, que começam a fazer seus primeiros filmes na primeira década do século 21. Não se trata de pensar esses filmes como um grupo, portanto, mas como um conjunto de obras que, se não integram uma onda ou segmento, ao menos nos permitem ver em conjunto o que alguns dos novos diretores brasileiros andam construindo."

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