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Tiradentes, entre a tradição e a novidade

Mostra exibe novo filme de Saraceni e documentário polêmico sobre drogas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

Vá alguém confiar na internet. Em busca de informações sobre O Gerente, longa de Paulo Cézar Saraceni que abriu a 14ª Mostra de Tiradentes, na sexta-feira à noite, o repórter encontrou a indicação de que era não apenas baseado num romance do irmão (Sérgio Saraceni) do diretor, mas também que se tratava de uma história "de nossa família", aspas atribuídas ao próprio cineasta. Nada disso. O Gerente foi o primeiro roteiro escrito por Saraceni e se baseia num conto de Carlos Drummond de Andrade.

A cerimônia de abertura constou de duas homenagens - a Saraceni e ao ator Irandhyr Santos, "ao que está chegando e ao que está indo embora", como sintetizou, de forma um tanto rude, o também diretor Cláudio Assis - e de um desfile do estilista mineiro Ronaldo Fraga, que desconstruiu o uniforme de frentista numa homenagem a Petrobrás, grande patrocinadora da Mostra, que está atingindo a marca de 500 filmes. Foram 26 modelos em que o macacão ganhou referências cinematográficas.

Havia grande expectativa pela presença da ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Foi sua primeira aparição num grande evento de cinema - de cultura em geral - e ela decepcionou. Disse meia dúzia de banalidades, errou nos números ao citar a frequência de público no ano passado - atribuiu ao cinema brasileiro 10 milhões de espectadores, quando só Tropa de Elite 2, de José Padilha, fez mais do que isso - e jogou para a secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, a discussão sobre o futuro da Ancine. A secretária participa hoje de um encontro com a classe em Tiradentes. Terá de desfazer a má impressão - de superficialidade - deixada pela ministra.

O sábado foi marcado pelo documentário Cortina de Fumaça, de Rodrigo MacNiven, em que até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso advoga pela descriminalização das drogas. MacNiven fez um trabalho sério de pesquisa, ouvindo especialistas que desmontam falácias sobre a maconha. Seu filme recorre a gráficos e a uma montagem acelerada. Lembra os documentários de Errol Morris, com um pé no espetáculo, e, de certa forma, desdiz a intenção do cineasta.

MacNiven afirma que Cortina de Fumaça é sua contribuição ao debate sobre um tema visceral - a recente ocupação das favelas do Rio está ligada ao tema. Mas, na verdade, é muito mais uma obra de convencimento, uma espécie de demonstração de tese. A maconha não faz mal, é menos ofensiva para o organismo humano que o álcool e o cigarro, o problema do tráfico é a criminalização da droga. Cortina de Fumaça vai dar o que falar. Não por acaso, o público aplaudiu de pé o diretor.

De volta a O Gerente, o filme de Saraceni possui fragmentos de grande beleza num conjunto discutível, para dizer-se o mínimo. O autor não o teria feito de forma diferente há 50 anos e isso não é exatamente um elogio. Mas Saraceni estimulou Júlio Bressane e ele deu o show. Integrou a mesa para debater a importância de Saraceni e, como não houve propriamente um debate sobre O Gerente, assumiu o papel de crítico. Deu uma aula de cinema. Na sequência, concedeu uma entrevista atacando o sistema de patrocínio do cinema no País. Ele inscreveu O Beduíno em três editais e, apesar do seu currículo e do baixo custo (R$ 600 mil), não foi aprovado em nenhum. Mas está feliz. Está concluindo outro filme sem patrocínio - Rua Arepana 52 - e ganha no exterior a consagração que os patrocinadores do cinema brasileiro lhe negam.

A RAI (italiana) comprou 22 de seus filmes e começa a exibi-los em março. Em maio, a Cinemateca Portuguesa lhe dedica uma retrospectiva com 25 títulos, que será levada depois à Itália.

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