Tiradentes desembarca no Cinesesc

Parceria pioneira traz à cidade o melhor da mostra mineira que virou vitrine da produção independente no País

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2013 | 02h13

Numa bem-vinda parceria entre a Universo Produção (de Belo Horizonte) e o Sesc São Paulo, desembarca hoje na cidade o mais importante evento de cinema independente brasileiro. Até a próxima quinta-feira, dia 11, o paulistano poderá assistir a 24 títulos que compuseram a mostra Aurora, menina dos olhos da Mostra de Cinema de Tiradentes, que ocorre em janeiro, na cidade mineira. É a primeira vez que isso ocorre, e o cinéfilo não deve perder a oportunidade de entrar em sintonia com o que de mais inventivo se faz em matéria de filmes no Brasil.

Cinema de autor, de invenção, fora do eixo - Tiradentes engloba tudo isso e, por isso mesmo, a Mostra Autora virou referência nacional e internacional, atraindo olheiros dos maiores festivais do mundo, que garimpam em Minas as pepitas que vão brilhar nas seções paralelas de Veneza, Cannes e Berlim. Já foram 16 edições de Tiradentes e seis de Mostra Aurora. E está tudo interligado - a Mostra Tiradentes integra um tripé montado pela Universo Produção. São três eventos de cinema, que começam em janeiro com Tiradentes, o cinema de invenção.

Em junho, o Cine OP, Ouro Preto, volta-se para o cinema de arquivo - e este ano, antecipando-se aos 50 anos do golpe militar (em 1964), já sinalizou o que será o debate sobre o cinema de resistência à ditadura. Mais para o fim do ano, a Mostra CineBH abre uma vitrine para a produção internacional contemporânea, e promove debates sobre o mercado.

As irmãs Hallak, Raquel e Fernanda, olham o cinema em sua totalidade - como pesquisa estética, patrimônio e mercado. Para a realização da Mostra Aurora, elas têm um aliado importante - o crítico e professor de cinema Cléber Eduardo, que tem feito a curadoria do evento. A Mostra Aurora não se constitui apenas de projeções, mas também de debates e homenagens. A ideia é trazer uma extensão de Tiradentes a São Paulo. Cléber montou a programação - 13 longas e 11 curtas que serão exibidos em duas sessões noturnas, durante sete dias. No fim de semana, ocorrerão dois debates, à tarde. No sábado, o tema proposto é - Perspectivas do Cinema Paulista. No domingo, Fora do Centro. O tema central da Mostra Tiradentes é justamente Fora de Centro e o Centro do País. O conceito é amplo - pode ser, e é, o cinema feito fora do eixo Rio/São Paulo, mas também é o cinema que prefere a linguagem ao mercado.

Nesses anos todos de Tiradentes, e de Aurora, uma nova geração de cineastas tem se afirmado. Há um novíssimo cinema pernambucano, mas também há um cearense e um mineiro, para citar as cinematografias regionais que mais têm se destacado na cidade mineira. Para abrir a Mostra Tiradentes em São Paulo, foi escolhido o longa Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, coproduzido pelo Canal Brasil. Com cenas filmadas no Uruguai, o documentário investiga o período em que o ex-presidente João Goulart viveu no exílio. Desta maneira, busca revelar uma história menos conhecida do político que já foi retratado por Sílvio Tendler em outro documentário clássico, que virou emblema das diretas-já (Jango, de 1984).

Outros destaques se encontram no quadro. São todos obras de diretores estreantes (até o segundo filme). Muitas vezes dialogam entre si, como os autores também dialogam, trabalhando uns nos filmes dos outros. Mas a diversidade de foco e de gênero dá o tom. A diversidade de interesses, também.

Os pernambucanos não só investem no documentário como privilegiam a questão social. Os cearenses expõem mais a subjetividade, destaca Cléber Eduardo. O desenho do personagem, a forma como ele trafega pelo espaço, não só revela o País como abre uma janela para ficções mais rarefeitas, e elas também têm dado o tom para aquilo que Tiradentes e a Aurora mostram como alternativas a um cinema mais tradicional.

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