"Tio Vânia" retrata uma família russa

O ator Celso Frateschi já tem nas costas duas interpretações de Chekov com grande sucesso. Ele interpretou Trigorin, no espetáculo Da Gaivota de Daniela Thomas, com Fernanda Torres, Matheus Nachtergaele, e Fernanda Montenegro em 1998. Também atuou em As Três Irmãs de Enrique Dias com Maria Padilha como produtora e principal atriz. Amanhã, ele estréia no Teatro Ágora Tio Vânia sob sua direção, no seu próprio teatro, e sua pretensão ao encarar novamente um texto do dramaturgo russo é muito diferente das anteriores. "A vida de Chekov e a sua dramaturgia são muito mais interessantes que a vida de nós atores e diretores", diz. "A nossa intenção ao montar o Tio Vânia foi tentar ser fiel à sua dramaturgia e ao seu tempo, diminuindo ao máximo a nossa presença", assume o diretor. As montagens de Daniela Thomas e Enrique Dias, tinham a pessoalidade como marca. Em ambos a concepção poética dos dos diretores e atores superaram a relevância do texto de Chekov, na opinião de Frateschi. "Em todos, a experiência foi muito rica, mas a trajetória do grupo do Ágora é outra", diz Celso. Os atores de Tio Vânia se reuniram no Núcleo de Investigação Teatral que é comandado por Celso Frateschi e esta é a primeira encenação. "Esperamos que seja a nossa base para agüentar as muitas dificuldades que ainda vamos enfrentar". A montagem celebra um ano das atividades do Teatro Ágora que tem como slogan "Uma opção pela menor grandeza". A frase é tirada de uma história de Brecht e resume bem o objetivo do espetáculo. Cada detalhe foi planejado para oferecer ao público a dimensão poética que Chekov almejava em seus textos minuciosos. No livro Minha Vida na Arte Stanislavski, conta que na montagem que fez da mesma peça, Chekov, ainda vivo ensinava que na simples gravata de seda usada por Tio Vânia, estava toda a definição da sua personalidade e da situação dramática da vida russa.Longe da atual onda de voyerismo televisivo, Tio Vânia mostra a intimidade de uma família russa na casa de campo que o tio do título administra. O dono da casa é o velho professor aposentado Serebriakov, admirado por Tio Vânia que mora com a sobrinha Sonia, filha de Serebriakov do seu primeiro casamento. Vânia é irmão da primeira mulher do professor. Os conflitos ocorrem quando Serebriakov e sua nova mulher Helena vão passar uma temporada na casa de campo. Vânia se apaixona por Helena e isso desperta um grande ressentimento pelo cunhado e patrão.O autor faz uma recomposição primorosa das personalidades em conflito. Chekov conciliou a profissão de médico e escritor durante anos, pesquisou o comportamento humano em todos os seus aspectos e reproduz muito bem seus dramas pessoais. "Ele coloca os personagens com uma vitilidade enorme mas vivendo em uma situação completamente mórbida, de fim de século, mas tudo em uma ebulição reprimida que está a um triz de explodir"A cenografia e os figurinos foram elaborados pela arquiteta Silvia Moreira, atual mulher de Frateschi. A criação é primorosa em sua concepção e pesquisa histórica. Silvia vasculhou livros russos com fotos das casas de campo do século passado, e fuçou em sebos e antiquários atrás das imagens. Celso aposta que cada um dos objetos em cena pode trazer uma interpretação nova ao drama existencial vivido pelos personagens. "A água fervendo no antigo "samovar", todo fechado, simboliza a ebolição de vida que está sendo desperdiçada pelos personagens, tinha que ser este objeto para poder fazer esta simbologia", diz.Já para Silvia, a composição dos três ambientes no pequeno espaço do Ágora, é a parte mais importante. O cenário é uma casa de campo onde as principais ações são divididas entre a extensa varanda, o minúsculo escritório e a sala interna da casa. Sua interpretação do cenário é a de um quadro renascentista "É um ambiente fechado e frio com todas a tensão rolando nesta casa em primeiro plano, mas com uma janela aberta para o mundo que estes personagens então perdendo", analisa Silvia mencionando o mapa mundial colocado no fundo do escritório.O público senta como se estivesse no quintal da fazenda, junto com as vacas, vendo a briga da família", conta a arquiteta. "Eu já consigo imaginar todo o resto da casa só de ver esta parte dela que a gente inventou".Tio Vânia - Estréia: 25 de Novembro de 2000. Àsquintas, sextas e sábados, às 21h00; domingos, às 18h00. Teatro Ágora - R. Rui Barbosa, 672 - Bela Vista. Tel: 284-0290.

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