Tintas fortes sobre um jovem gênio

Disaster Was My God, romance de Bruce Duffy, recria a extravagante vida do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud, que escreveu todos os seus lendários versos antes dos 21 anos de idade

Albert Mobilio, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

Patti Smith surrupiou um volume de seus poemas e teve uma revelação. Jim Morrison se correspondia com seu tradutor inglês. Ao ler pela primeira vez a obra, Bob Dylan relata que ouviu "sinos soarem". Junte Salinger, Dylan Thomas, e a maioria dos beats, e terá uma boa ideia da extensa base de fãs de Rimbaud: rebeldes inebriados com a linguagem. O fato de todos esses roqueiros e escritores terem se apaixonado pelo autor quando eram adolescentes ou um pouco mais velhos apenas não surpreende - o simbolista francês escreveu todos os seus poemas lendários antes de completar 21 anos. Mas a estatura heroica de Rimbaud sempre colocou um problema para o jovem e inquieto. Embora tenha revolucionado a poesia - se não toda uma sensibilidade cultural - com pouca idade, ele logo se afastou das barricadas boêmias para passar o resto da vida como mercador colonialista, na verdade, algo como um traficante de armas, cuja pena só encontrou trabalho num livro-razão de contas recebidas. Em suma, o blasfemo órfico e renegado sexual se tornou o pior tipo de empresário.

Em Disaster Was My God (O Desastre Foi Meu Deus, em tradução livre), Bruce Duffy toma liberdades de romancista com o fato biográfico para oferecer um relato psicologicamente afinado da vida bifurcada, da família vexatória e da arte radical de Rimbaud. Embora a cronologia do romance alterne entre as últimas semanas do poeta na Etiópia, sua infância na Charleville rural, e seus anos adolescentes em Paris, todos os pontos altos familiares recebem o que lhes é devido: o prodígio que espanta professores ao recitar duas centenas de linhas de Homero em grego, o rapaz de 17 anos que chega à capital com um maço de poemas incluindo Primeira Comunhão, no qual uma menina experimenta "o toque dos lábios pútridos de Jesus"; o poeta sendo baleado por Verlaine, seu ébrio e rejeitado amante ("Foi espantoso", escreve Duffy. "A falta de palavras de Rimbaud, sem volta, desprezo ou resposta"). Figuras menos familiares preenchem o grosso do relato: a irmã do jovem poeta, Isabelle; a esposa de Verlaine, Mathilde; Djami Wadaï, um garoto serviçal etíope; e a mãe de Rimbaud, Vitalie, uma fanática religiosa tirânica que seguramente - como Duffy deixa jocosamente claro - estimulou o apetite do jovem pelo sacrilégio.

Duffy conhece o ofício: seu último romance, The World as I Found It (1987; no Brasil, Guerra de Wittgenstein, Ediouro, 2005), fez praticamente a mesma coisa com o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (aliás, ambos os livros são prefaciados com ressalvas similares sobre a confiabilidade factual). Esse livro, como era talvez adequado ao seu tema, progride discursivamente enquanto ruminações comedidas sobre Bloomsbury, identidade judaica e sexualidade são entrelaçadas mediante relações meticulosamente evocadas com George Moore e Bertrand Russell. Embora o tom de Disaster seja decididamente mais casual e, em alguns pontos, absolutamente empolgado (mais condizente com uma sensibilidade gálica que germânica), o romance também enfoca seu protagonista por meio de outras duas personagens, neste caso Vitalie e Verlaine. Embora o estilo coloquial às vezes soe excessivo (ganchos narrativos como "nosso rapaz", "nosso Arthur", e "o que o garoto enfrentava" mais irritam que aplacam), Duffy teve a inteligência de evitar qualquer dicção do século 19.

Rimbaud é descrito como um monstre sacré; Vitalie como um mero monstro, não obstante uma vítima de circunstâncias difíceis. Tendo perdido sua própria mãe aos 5 anos, ela criou "dois irmãos imprestáveis" e serviu bastante literalmente de esposa a seu pai. Casada, ela deu à luz quatro filhos em rápida sucessão depois do que seu marido fugiu. Seu catolicismo devoto é matizado, pois, por um tom raivoso e vingativo. O mesmo vale para sua fervorosa crença no gênio do jovem Arthur; ele é "não só um milagre de verdade, mas o milagre dela". Duffy a apresenta com grotesca comicidade, alguém cuja grandiosidade excessos emocionais são herdados e ampliados por seu filho voluntarioso. Visitando Chartres, ela entra no confessionário em busca de conselho sobre seu filho que foi viver em Paris com um homem. Para o padre que a aconselha a manter sua fé, ela murmura entre dentes, "Eu quebrei meus joelhos por Deus... Uma mulher dará um padre melhor algum dia". E se a mãe despreza seus superiores e encontra em Cristo o substituto para um marido, Rimbaud consegue expandir e inovar sobre o tema. Quando pensionista de Verlaine, ele troça da esposa burguesa do amigo roubando flagrantemente seu crucifixo: "Com malícia, ele o pegou. Ele o enfiou dentro de sua calça, o metal frio formigando na ponta de seu pênis".

Cenas como essa - por exemplo, quando a especulação psicológica sobre mães dominadoras e filhos artísticos pode ser feita na esteira dos fatos - são justamente o que biógrafos convencionais procuram, mas raramente encontram, ou ao menos não tão bem embaladas. Eles tampouco se inclinam a imaginar as vidas de seus objetos como a proximidade de Duffy: "O poeta mais velho estava de joelhos, e ali, acima dele, como um jovem deus, os dedos travados sobre sua garganta, estava sua musa e senhor. A alegria se apoderou dele enquanto Verlaine abria seus lábios barbados - lábios experientes que sabiamente cobriam seus dentes, acariciando e lambendo, mascando e sussurrando num ritmo de tambores, ???Os filhos de mamãe juntos". A criação de Duffy está provavelmente correta e, como tal, parece perfunctória - apesar de suas frases dançarem aliterativamente, reproduzindo com competência o espírito dessa dupla extremamente poética. Os detalhes que o romancista pode inventar nem sempre precisam ser inventados. Num terreno mais seguro, depois de ter feito cuidadosamente sua pesquisa, Duffy escrutina uma cena não tão prontamente invocada, uma que ele elabora como a conversa mais traiçoeira - os parnasianos lendo o trabalho um do outro: ""Sei que você tem coisas grandes em teu íntimo", concede o garoto, por fim... "Mas sou obrigado a te dizer: isto é uma merda... uma merda. Você nunca mais deve escrever dessa maneira"." Verlaine pragueja, mas não pode deixar de reconhecer que o adolescente está certo. E aí o golpe de misericórdia: Rimbaud tira do bolso traseiro uma coisa ridiculamente intitulada O Barco Ébrio. Duffy aproveita a oportunidade para reproduzir a reação verbal de Verlaine e, com isso, capturar o senso de revelação fresca, palpável, tão familiar aos leitores de Rimbaud: "Apesar de ainda não compreender, ele sabia ???que o que sabia. Sabia fisicamente. Sabia pelo calor, o choque, a pura estranheza animal."

No que tem de melhor, o romance toma a forma de uma espécie de crítica literária híbrida com a qual Duffy instila vida vigorosa a textos existentes. Ele inclui a carta que Rimbaud escreveu a um ex-professor declarando-se um vidente, defendendo um "desregramento de todos os sentidos", e fazendo seu mais famoso enunciado: "Je suis un autre" (Eu sou um outro). Duffy propõe uma origem ordinária para essa noção extraordinária, uma que teria brotado nos tempos de escola quando Rimbaud criou um menino imaginário que dizia "Presente" durante a chamada. O Rimbaud real "estava de fato ausente" enquanto "seu duplo fez o trabalho rotineiro do garoto premiado... ele era dois: o que o escrevia e o que o desescrevia, refutava, e depois o entregava, outro bastardo largado numa escadaria de igreja." Há também um comentário crível sobre a guinada consternadora de Rimbaud - como o adolescente que rabiscou MERDE A DIEU nos muros de sua aldeia se tornou um mercenário traficante de armas de meia-idade: "Sobre poesia, ele era consumido por dúvida, pavor e aversão. Ele tinha integridade, e estava cada vez mais horrorizado com o cinismo, o egoísmo e a irresponsabilidade flagrante de escrever, de criar essas vãs criaturas verbais." Esses sentimentos certamente podem ter sido retirados da obra final de Rimbaud, Uma Temporada no Inferno, o que Duffy chama de sua "confissão assinada", mas o romancista astutamente complica sua própria avaliação. Quando Rimbaud estava se preparando para partir para a Etiópia, um comerciante inglês, um amante de poesia, o inquire sobre o significado de seu poema notoriamente intratável, Vogais. "Eu não escrevo mais poesia", ele respondeu. "De todo modo, não acho que algum artista possa corretamente explicar o que fez. E, de qualquer maneira - bem, e daí?" A falta de articulação limítrofe, improvisada, da resposta constitui um metacomentário às análises de arte suavemente torneadas de Duffy ou de qualquer outro.

Há um quê de inegavelmente excitante nesse tipo de leitura próxima em forma livre; vida e arte se misturando provocadoramente nas conjecturas de Duffy. Precedendo-o nesse esforço rarefeito, alguns romances sobre poetas reais surgiram recentemente - no ano passado, John Clare ganhou o palco com The Quickening Maze, de Adam Foulds, e, em 2008, em Fall of Frost, Brian Hall examinou a vida de Robert Frost. Esses livros também animam os arquivos mobilizando destramente invenção e incidente. É difícil dizer, contudo, o que achará dessas narrativas alguém que não esteja familiarizado com o trabalho de Clare e Rimbaud, por exemplo. Mas o problema não se resume aos poetas - a maioria dos romances biográficos, sejam eles sobre Edison, Catarina de Aragão ou Nixon, envolve leitores informados mais facilmente porque eles estão dispostos manifestar interesse pelo protagonista desde o começo. Em Disaster Was My God, o autor começa com uma das figuras mais enigmáticas e atraentes da literatura. Os escritores e roqueiros, os adolescente insatisfeitos (em certo ponto, Duffy apelida Rimbaud de "grande ur-punk") e professores titulares - Duffy terá o apreço de muitos deles. Fortemente temperado pelo ritmo urgente dos próprios poemas, o romance alcança a intensidade intelectual do poeta e sua inclinação para observar, condensar e dar vida. Os que "desceram por Rios impassíveis" e não se sentiram mais "guiados pelos rebocadores" encontrarão grande prazer. E para os não iniciados, o romance pode ser um convite a ler Rimbaud enquanto eles meditam com Duffy sobre o mito: o gênio menino cujos poemas mataram o poeta nele. /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

ALBERT MOBILIO É AUTOR DE TOUCH WOOD (BROOKLYN RAIL/BLACK SQUARE EDITIONS)

DISASTER WAS MY GOD

Autor: Bruce Duffy

Editora: Random House

(384 págs., importado, R$ 62,40)P

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