''Tinha incrível modéstia''

Ryan Truesdell fala de Evans e das canções inéditas que vai registrar em disco

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

Na sequência da entrevista, Ryan Truesdell fala sobre o Gil Evans compositor e sobre as preciosidades descobertas que pretende gravar para as homenagens do centenário de nascimento do mestre.

Por que ele não é mais lembrado como compositor?

Pode haver mais de um motivo. Talvez, isso se deva ao fato de que o trabalho como arranjador seja encontrado em toda parte e cobre um espectro enorme. E ele arranjou standards populares, canções dos outros. Eu tenho conversado com músicos que trabalharam com o Gil e todos me dizem a mesma coisa. Ele ainda não recebeu o crédito merecido como compositor. Em parte, ele é culpado. O Gil era de uma modéstia incrível. Um músico comentou comigo, eu via o Gil sentado horas ao piano, lutando com uma sequência de acordes. E ele acrescentava aquela nota extra, a dissonância que nós conhecemos tão bem e que elevava a música a outra altura. Mas ele dizia, "Eu faço harmonias de barbeiro. Somente tento acrescentar um tempero, aqui e ali."

Para alguém que se formou em composição e regência, depois de anos estudando e trabalhando com Bob Brookmeyer e Maria Schneider, deve ter sido especial encontrar nova música de um compositor ligado aos dois.

Foi uma aventura, cheia de pequenos momentos os quais eu vou sempre desfrutar. Foi como ter uma nova janela aberta sobre a vida do Gil, o que ele pensava. Por exemplo, quando examinei o material além de 1960, vi que, depois de terminar os álbuns Sketches of Spain e Quiet Nights, ele continuou escrevendo para o Miles Davis. Eram esboços, várias tentativas não concluídas. Achei rascunhos com anotações "Miles", "Wayne" (Shorter) e "Herbie" (Hancock). Fica claro não apenas que ele estava cheio de ideias novas, como tinha a intenção de um dia voltar a trabalhar com o Miles.

Quais as preciosidades que você destacaria da seleção feita recentemente em dois concertos que regeu na Igreja de São Pedro, em Manhattan?

Na noite do Prez Fest, entre os minhas favoritas está um medley que o Gil arranjou para a orquestra do Thornhill em 1947. As três canções são Easy Living (Ralph Rainger e Leo Robin), Everything Happens to Me (Tom Adair e Matt Dennis) e Moon Dreams (Johnny Mercer e Chummy McGregor). Note que, no caso de Moon Dreams, trata-se da mesma canção que o Gil arranjou para a lendária gravação de Birth of the Cool, com o Miles Davis, que é de 1957. Então, temos aqui a primeira versão do arranjo que se tornaria clássico. Na partitura que encontrei e nunca foi gravada, a instrumentação é enorme: havia mais flautas, uma tuba e duas trompas. É fascinante observar a linhagem de uma peça que é tão importante na história das gravações de jazz.

No concerto, além do cantor Andy Bey, que participou do medley, você convidou o grande saxofonista Phil Woods, que vai completar 80 anos.

Ele não é incrível? O Phil tocou os solos dos arranjos que o Gil escreveu para o Cannonball Adderley - não posso pensar em ninguém mais apropriado para fazer justiça ao Cannonball.

O que não pode faltar no CD que será gravado este ano?

Vai ser difícil abrir mão de muito do que gostaríamos de gravar, mas é importante, como disse, ilustrar a diversidade da obra do Gil. Além do material da orquestra do Thornhill, há pecas que ele escreveu para a própria banda, a partir dos anos 60. Uma, especialmente, sempre me fascinou, porque pensávamos estar perdida. O saxofonista Steve Lacy, que participou da gravação de Out of the Cool, de 1960, dizia que tinha ensaiado uma faixa com influência de música indiana, que não entrou no disco, mas ele considerava a música uma das mais fortes daquele repertório. E eu achei a partitura, chama-se Punjab (não confundir com a composição do mesmo título, de Joe Henderson). Mas faltavam as anotações para seção rítmica. E encontramos a gravação do ensaio! Agora podemos restaurar Punjab para a gravação comemorativa do centenário. E tenho também o prazer de contar que achamos o arranjo lindo e inédito feito para Look to the Rainbow, a faixa título do disco da Astrud Gilberto de 1965. A gravação original é com um quarteto, uma seção rítmica e a voz da Astrud. Mas o Gil escreveu também um arranjo da mesma canção para orquestra. Estou muito feliz, porque acabei de conseguir o "sim" de uma grande cantora para gravar esta peça, a Luciana Souza.

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