Timoneiro que inspirou Hemingway morre aos 104

O pescador cubano Gregorio Fuentes morreu domingo. Tinha 104 anos e tornou-se conhecido há 50, quando um americano grandalhão publicou um livro e disse ter se inspirado nele para criar o personagem principal, Santiago. O gringo era Ernest Hemingway, um ianque falastrão, bom de briga, bom de copo, mulherengo, caçador e pescador. Em 1952, publicou O Velho e O Mar, obra-prima que conta a história da solitária luta de um velho com um peixe.Fuentes tornou-se celebridade na colônia de pescadores de Cojimar - tal como o vaqueiro Manuelzão, personagem imortalizado por Guimarães Rosa, procurado por fãs e leitores em Cordisburgo, cidadezinha do sertão mineiro. Em 1998, Fuentes foi a estrela do seminário Hemingway Descobre Havana, organizado para comemorar os 70 anos da primeira visita do escritor a Cuba, em 1º de abril de 1928.Especialistas do mundo todo franziram a testa quando o pescador desfez a versão de que teria sido ele o homem que inspirou o escritor a criar o velho Santiago. Contou que numa de suas incontáveis pescarias, Hemingway encontrou um homem e um menino a bordo de um bote minúsculo em alto mar. Em seguida, aproximou-se e pediu a Fuentes que desse comida ao garoto. O velho, indignado, recusou a comida e insultou o escritor e seu companheiro com uma chuva de palavrões. Fuentes diz que aquele gesto foi o embrião de O Velho e o Mar.Foi excesso de modéstia. Um grande personagem é sempre uma soma, do autor e de pessoas com quem cruzou ou conviveu, ente elas encontra-se o cubano. Ele cruzou com Hemingway por acaso. Não o conhecia. Passava a maior parte do tempo a bordo de barcos nas águas quentes do Golfo do México. Quando não estava no mar, dividia seu tempo entre copos de rum e rinhas de galo.Foi em um dos cais que pontilham o noroeste de Cuba que Fuentes encontrou-se com o escritor e tornou-se capitão de seu barco. Depois de giros intermináveis pela Europa e África, Hemingway havia escolhido a ilha como lar. Mudou-se para Havana em 1938 onde se hospedou, ao lado Martha Gelhorn, sua terceira mulher, no hotel Ambos Mundos.Um ano depois, pressionado por Martha, alugou por US$ 100 mensais a Finca Vigia, um parasidíaco refúgio perto de Havana, com árvores, piscina, quadra de tênis, e espaço suficiente para criar 57 gatos, quatro cães e alguns galos de briga. Comprou a propriedade em 1940, mas três anos depois Martha não agüentou e foi embora, deixando a vaga para Mary Welsh, sua companheira definitiva.Doses fartas de rum - Foi ao longo da década de 40, entre generosas doses de rum, que Hemingway e Fuentes se tornaram companheiros de embarcação. Navegaram juntos centenas de milhas náuticas a bordo do iate Pilar, de Hemingway, atrás de marlins azuis. O escritor parecia feliz em Cuba, segundo Fuentes declarou uma vez.Literariamente foi seu melhor período. Em Finca Vigia, escreveu alguns contos, dezenas de artigos e reportagens e praticamente três dos seus oito romances. Foi lá também que passou duas luas-de-mel, comemorou o Nobel de literatura, em 1954, e formou um time de beisebol com garotos cubanos.Para o jornalista cubano Norberto Fuentes, autor de uma biografia do escritor, Hemingway escolheu viver em Cuba por causa do Grande Rio Azul, a 45 minutos de sua casa. Ali ele dizia ter encontrado a melhor e mais abundante pesca da sua vida. Sua casa tornou-se local de peregrinação de amigos e admiradores. Gente de todo tipo o visitava: toureiros, escritores, soldados, jornalistas e até astros do cinema. Há registros de que Ava Gardner tomou banho nua em sua piscina.Mas o idílio com a ilha terminou no início da década de 60 quando ele voltou aos Estados Unidos, para o lar da infância. Numa fazenda de Ketchum, Idaho (noroeste dos EUA), Hemingway, doente e deprimido, deu um tiro de rifle na cabeça. Havia cumprido uma promessa feita a alguns amigos cubanos, entre eles, o companheiro de pesca Fuentes: preferia matar-se a morrer prostrado em uma cama.A morte do escritor alterou profundamente a rotina do pescador. A partir daquele data, foi preciso diminuir o tempo passado no mar para atender a inúmeros pesquisadores, biógrafos, jornalistas e curiosos em busca de histórias sobre o amigo morto.

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