Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tim-tim, Martin!

Chega aos 40 anos um restaurante impecável que tanto bem faz também à alma

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 03h00

Houve um tempo em que, na mesma rua, eu fazia a cabeça por dentro e por fora. Só a frequência variava. Uma vez por semana, durante anos, lá estava eu numa casinha da Simão Álvares, na Vila Madalena, com seu jardim protegido por uma paliçada de bambu, a soltar os meus fantasmas em sessões de terapia. Ficou por decifrar uma ocorrência talvez prenhe de significados, o episódio do Omega cujos ponteiros pararam – para todo o sempre – justo no momento, 9 da manhã, em que eu entrava em mais uma sessão. Algum Freud de relojoaria explicará?

Mas não permita que eu me perca. Na mesma Simão Álvares, uma vez por mês, eu entregava as melenas ainda escuras à tesoura de um barbeiro. Me lembro bem do dia em que, numa padaria das proximidades, voltando os dois de uma corrida (hoje seria caminhada, e olhe lá) na Cidade Universitária, o amigo com quem tomava um café denunciou a presença, numa lateral de meu crânio, de um filamento não exatamente escuro. Chiliques à parte, até porque não sou dado a isso, não sei como não deixei cair a xícara. O primeiro cabelo branco a gente não esquece. Está nos meus planos, aliás, para tão logo passe a pandemia (veja como ando otimista), convidar o amigo, hoje poeta publicado, para um repeteco cafeínico na mesma padaria. O desafio que dessa vez vou lhe propor será o de encontrar, na minha já não tão basta cobertura craniana, algum fio que não seja branco.

Retomemos aqui o fio, o não capilar, até para que não fique a impressão de que no interior da cachola, ao contrário do que se vê no lado externo, a coisa ficou preta. Dizia eu que na mesma rua fazia a cabeça por dentro e por fora. Mais do que coincidência, pareceu tratar-se de fatalidade benigna o dia em que a terapeuta me avisou que o consultório estava de mudança para a Fradique Coutinho – rua vizinha para onde também o salão do Antônio Carlos se transferia. Para mim, só não mudou um terceiro endereço: aquele em que, feita a cabeça em qualquer modalidade, eu costumava ir fazer o estômago. 

Costumava e costumo ainda, pois a casa, impecável pouso acolhedor, segue firme no mesmo ponto, prestes a completar, neste 17 de setembro, 40 anos de bons serviços prestados ao corpo e também à alma. Sim, o restaurante Martin Fierro, da Ana Massochi, quase no final da Rua Aspicuelta, de onde, conforme a mesa que ocupe, posso ver o antigo consultório da primeira terapeuta. E veja se de fato não parece haver uma fatalidade nessa história: a analista a quem mais tarde recorri atendia, a uns 700 metros dali, no extremo oposto da Aspicuelta. Quando o divã ejetável de Lacan me despedia, invariavelmente no momento preciso, era para o Martin que eu me dirigia. Se outra vez se me apresentar necessidade de conciliar tipos diversos de carência, a espiritual e a física, haverei de batalhar para que a casa da Ana me reserve, além de mesa, divã.

*

Tantas décadas depois, já não me lembro quando foi que conheci essa argentina de Corrientes que um dia, acossada pelos horrores da ditadura platina, veio dar com os costados no Brasil, com um bebê nos braços e bem pouca ideia de como iriam os dois sobreviver. Em algum momento trocou Nova Iguaçu, onde foi vendedora de porta em porta, por São Paulo, onde o Hugo Ibarzábal, seu compatriota, precisava de ajuda para manter na tona o recém-criado Martin Fierro. Mais adiante, aquela que principiara como sócia não capitalista comprou a parte do Hugo e passou a ralar sozinha. 

Com certeza nos vimos ali, no começo dos anos 80, assim como nos cruzamos num clube cujo nome vou silenciar, mas cuja precariedade estará bem caracterizada pelo apelido que alguém lhe pespegou: Bidezão. Eu encontrava ali uma fartura de jornalistas, e até leitores – entre estes, a já bonita Ana Massochi. Para tomar sol era preciso, a curtos espaços de tempo, fugir da sombra que avançava, o que me fazia lamentar a inexistência de toalha com rodinhas. Muita gente parou de ir ao Bidezão no dia em que, com a piscina cheia, alguém tropeçou, no fundo, num cadáver de afogado.

Não seria ali que minha amizade com a Ana iria prosperar. Como os excelentes vinhos que o Martin oferece à clientela, foi necessário deixar que nosso afeto amadurecesse sem açodamento. Sommelier que sou apenas de mim mesmo, acho que atingi o ponto exato – aquele em que já se pode partir para aquilo que, tomando-se liberdades com a língua espanhola, se poderia chamar de desarrollo: o ato de sacar a rolha – depois que me muni do Paulo e da Luiza, amores capitais da minha vida, e, não menos amados, os netos Gloria e Valentim, que tiveram a ventura de chegar quase bebês, até para rimar, à mesa do Martin. 

Mesa sem erro, posso asseverar, pois da cozinha jamais me veio uma só decepção. Sem prejuízo de farta frequentação não programada, durante muito tempo bati ponto ali às terças, para estar com a Ana, a Wanda, a Adelia, a Lia, o Roldão e o Flávio, discreto e amoroso formador da roda, e que um dia nos pregou a peça de partir sem volta. Também por ele vou erguer meu brinde nesta terça-feira, e, com ênfase redobrada, na quinta em que se comemoram os primeiros 40 anos do Martin Fierro.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA'

Tudo o que sabemos sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.