TIM RICE SUPERSTAR

Autor dos maiores musicais do mundo fala ao 'Estado' sobre sua carreira e da parceria com Elton John em O Rei Leão, suntuoso espetáculo que chega a SP

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h11

Sir Tim Rice adora desafios. Gosta, na verdade, de ostentá-los na forma de prêmios. O inglês de 68 anos que chega a São Paulo no dia 25 para a estreia da versão nacional de um de seus maiores sucessos, o musical O Rei Leão, tem duas enormes caixas em seu escritório cheias de Discos de Ouro e outras estatuetas reluzentes, recebidas ao longo de quase cinco décadas de uma carreira de sucesso - e ousadias.

Afinal, são dele as letras das 'pecaminosas' canções de Jesus Cristo Superstar, ópera-rock de 1970 que fez a Igreja estrilar por conta da paixão de Madalena pelo filho do Senhor, além da vulgarização de cultos messiânicos. Ou mesmo Evita, outro fruto da parceria com Andrew Lloyd Webber, que tornou mundialmente conhecida outra mártir, a dos argentinos. "Gosto de me reinventar", diverte-se Timothy Miles Bindon Rice em conversa por telefone com o Estado. É o que explica, por exemplo, seu próximo projeto, uma versão musical de A Um Passo da Eternidade, história de soldados americanos durante a 2.ª Guerra Mundial já filmada nos anos 1950, mas sem as insinuações de homossexualismo que agora constarão em sua versão.

Ou ainda uma peça sobre a tragédia pessoal do escritor florentino Nicolau Maquiavel, que mostrou como a política obedece a uma lógica própria, nem sempre a mesma dos atos humanos.

Em São Paulo, Rice vai conhecer a versão brasileira de um de seus grandes sucessos, O Rei Leão, primeira parceria com Elton John, em 1997 - eles voltariam a se encontrar três anos depois, em Aída, sem repetir, porém, o êxito anterior.

O Rei Leão ainda é uma exceção entre os musicais. Para se ter uma ideia, está em cartaz há 16 anos e já faturou, no mundo todo, cerca de US$ 4,8 bilhões, batendo nas bilheterias um super peso pesado, O Fantasma da Ópera, que está há muito mais tempo na estrada - estreou em 1986. Com estreia marcada para o dia 28, no Teatro Renault, o musical dirigido por Julie Taymor será também a maior produção do gênero no Brasil, realizada pela Time For Fun. Sobre o trabalho, Rice - um amante de críquete, a ponto de formar a própria equipe em 1973 - concedeu a seguinte entrevista.

Como foi trabalhar com Elton John em O Rei Leão?

Foi ótimo, sempre fui fã dele, o que facilita a identificação - já conhecia bem suas músicas, assim, sei como funciona seu gosto musical. No total, entre O Rei Leão e Aída, trabalhamos em algo como 30 ou 40 músicas.

Mas foi uma parceria fácil?

Foi difícil no início, pois estou habituado a escrever a letra com a melodia já composta. Com Elton, eu não tinha nenhuma pista pronta, apenas um papel em branco à minha frente, pois ele prefere o contrário, ou seja, criar a música com a letra já escrita. O que me ajudou foi ter discutido a história com a equipe de produção, que me permitiu compreender o espírito da história.

Como foi a criação de uma canção tão importante como O Círculo da Vida?

Foi um processo criterioso. Sabíamos o que cada música tinha de expressar e, numa primeira versão, O Círculo da Vida era mais específica no tocante aos diferentes animais, mas não funcionou. Elton também criou uma melodia muito bonita, mas claramente desesperançada. Assim, decidimos seguir um novo rumo: escrevi uma letra mais séria e tive o privilégio de acompanhar Elton compondo: no estúdio, ele leu a letra várias vezes, testando melodias. Foi fascinante. Uma hora e meia depois, o trabalho ficou pronto. Ele estava tão envolvido que me pediu até para criar mais um verso, para que a canção ficasse mais alegre. Ele estava certo, pois músicas engraçadas precisam rimar - as sérias, nem sempre.

A versão brasileira foi feita por Gilberto Gil. Vocês conversaram sobre a tradução?

Não falei com ele, adoraria que ele tivesse me telefonado para tirar alguma dúvida, pois é um músico muito famoso e respeitado. Espero conhecê-lo pessoalmente, quando estiver aí para a estreia brasileira.

Comenta-se que as letras em um musical representam o trabalho mais difícil. Você concorda?

Não é apenas mais difícil como também muito importante, pois o objetivo é contar uma história. Se você consegue fazer isso, meio caminho está percorrido. Veja bem, o sucesso de um musical depende exclusivamente do balanço entre uma boa história e uma ótima trilha.

Na criação de um musical, vem primeiro a letra ou a música?

Em musicais, o normal é que a trama esteja definida para então se pensar na música. A exceção foi Elton John, que indiquei para a Disney para O Rei Leão. Quando ele estava contratado, tivemos uma primeira conversa por telefone em que perguntei se tinha músicas guardadas - sempre acreditei que artistas como ele têm material guardado. Para minha surpresa, ele respondeu: "Jamais escrevo uma música sem ter a letra".

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