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Tilda Swinton, em papel que exige a entrega total

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h08

Se é que se pode falar em injustiça no Oscar, a maior delas foi a não indicação de Tilda Swinton como concorrente a melhor atriz. Podia até não ganhar, pois Meryl Streep parece imbatível no papel de Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Mas como não indicá-la? Tilda é a alma e o coração deste Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lynne Ramsay, por certo um filme fora de série.

Ela faz o papel de Eva Khatchadourian, mãe do adolescente Kevin. Rara entrega de uma atriz, num papel dilacerado até a medula. À dor, Eva soma a angústia de não compreender o que aconteceu com ela, com o filho e com a família. E o que aconteceu? Isso, o espectador terá de descobrir por sua conta e risco.

Mesmo porque a estrutura do filme, proposta pelo diretor, é de molde a nada entregar de antemão. Até quase o final não sabemos o que se passou e como isso alterou a vida da protagonista. Para isso, Ramsay promove um movimento bastante interessante entre os tempos da narrativa, mesclando o passado e o presente de maneira intensa. No presente, o que temos é uma pessoa, Eva, com a vida arruinada, sem que saibamos por quê, em busca reconstruí-la de alguma forma e descobrir as razões de sua desgraça.

E, no passado, o que vamos vendo é uma família aparentemente normal, com o Kevin do título sendo o primogênito meio problemático, com dificuldade para falar e depois para aceitar a vinda de uma irmãzinha. Nada de extraordinário, não é? Um pai amoroso (John C. Reilly) e uma casa confortável completam o quadro.

O que há de intrigante na maneira como a história é narrada é o seu aspecto traumático. O golpe vem seco, forte, e de maneira inesperada, o que é a definição mesma do trauma. Ramsay não busca dar explicações psicológicas para o que sucede, apenas tenta seguir os passos de um adolescente problemático e, à sua maneira, bastante sedutor (interpretado também muito bem por Ezra Miller).

É um filme que choca e mexe conosco, em especial pela ausência de suportes explicativos. De certa forma, ficamos aliviados quando sabemos (ou julgamos saber) as razões daquilo que nos acontece. Quando isso nos é negado, o sofrimento é maior. Kevin é um filme sobre a angústia primordial, o sofrimento sem a bênção racional da explicação.

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