Tigran Hamasyan se apresenta na Sala São Paulo

A globalização do jazz moderno é ouvida em detalhes velados. O que um dia já foi uma explosão palpável de misturas - latin jazz, brazilian jazz, fusion - tornou-se um jogo complexo, liderado por músicos que se aprofundam em culturas diversas, em busca de elementos que deem distinção às suas formas de tocar. Um standard, por exemplo, pode ser sobreposto ao quebra-cabeça rítmico de um raga indiano, como faz o pianista Vijay Iyer. Um improviso sobre dois acordes pode ser entortado por danças bálcãs, com pitadas microtonais do gamelan indonês, sem cair no batido terreno da world music.

AE, Agência Estado

17 Outubro 2012 | 10h21

No caso do elogiado pianista Tigran Hamasyan, de 25 anos, que toca nesta quarta na Sala São Paulo, como parte da programação beneficente de concertos Tucca, a procedência estilística é armênia. "É um mundo riquíssimo", conta o músico, em entrevista à reportagem. "Primeiramente, me fascinam as melodias. Depois, os ritmos. É música étnica, folk music, assim como o jazz. Quando John Coltrane toca, me lembro de uma zurna, um instrumento armênio, tocando uma dança tradicional", explica.

Tigran foi o vencedor do prestigiado prêmio Thelonious Monk, em 2006. Já lançou quatro discos, ganhou elogios de Brad Mehldau e Herbie Hancock, e vem ao País para mostrar "A Fable", uma coleção de composições para piano solo, lançada em 2011. Como no caso de seus contemporâneos, a música de seu país de origem permeia inteligentemente seu estilo pianístico. Há quebras insistentes de ritmos tirados de danças armênias, e melodias que lembram, mais em sotaque do que sonoridade, os sons do Leste Europeu e do Oriente Médio, que deságuam no folclore armênio. "Há tantas semelhanças entre o universo jazzístico e o universo folclórico. De fato, não há dois universos, apenas um. Folk, seja música clássica indiana, seja música brasileira, escandinava ou flamenco, é uma coisa só. É sagrado para mim", conta.

Ao mesmo tempo em que sua música respeita a tradição armênia, seu fraseado é calcado no vocabulário de pianistas como Herbie Hancock e Keith Jarrett. Este último, curiosamente, leva o crédito de ter lhe revelado as riquezas da música de seu país. "Cresci ouvindo música armênia. Mas foi só quando descobri que Keith Jarrett e Jan Garbarek ouviam e readaptavam coisas do meu país, que eu realmente me aprofundei. Redescobri a música da minha cultura através deles."

"A Fable", seu novo disco, retrata esse toque armênio em singelas composições para piano solo. Há noturnos belíssimos, como "Rain Shadow", que abre o disco, e "The Spinners", que começa quieta e se transforma em algo semelhante a uma marcha ou um hino armênio. Seu vocabulário jazzístico, enraizado solidamente na tradição dos gigantes do jazz, costura os pianíssimos e fortíssimos de "A Fable". "Já fui um fanático praticante do bepop", responde a uma pergunta sobre as origens de seu fraseado. "Mesmo que eu tenha vontade de te dizer que não, há muitas coisas que se passam subliminarmente, no meu estilo, que vêm do bebop. Mas defendo que a minha música não é exatamente ''jazz''. Talvez algumas formas sejam. Talvez um pouco do meu modo de improvisar seja. Mas a improvisação está presente em diversas culturas", completa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

TIGRAN HAMASYAN

Sala São Paulo (Praça Julio Prestes, 16). Tel. (011) 3223-3966. Quarta, 21 h. R$ 60/ R$ 150.

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