Thor com Shakespeare

O diretor irlandês Kenneth Branagh explica o que há de comum entre ambos

Elaine Guerini, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2011 | 00h00

Mais lembrado pelas investidas no universo de Shakespeare, Kenneth Branagh não é cineasta que o público associaria a um blockbuster com selo da Marvel. "Aí que está a graça", brinca o irlandês de 50 anos, que sempre sonhou em comandar uma superprodução. Seu desejo foi realizado no set de Thor, extravagância em 3D que consumiu US$ 150 milhões e chega hoje às telas. "É normal tratar blockbusters como arte menor. Mas dirigir um grande lançamento americano é mais difícil que fazer uma peça modesta em teatro underground, onde já acumulei muita experiência", diz, rindo.

Foi a sensação de desafio que instigou Branagh a convencer Kevin Feige, executivo da Marvel Studios, a colocar o projeto sobre o Deus do Trovão em suas mãos, uma negociação que começou em julho de 2008. "Ninguém da Marvel acreditou que eu conhecia tão bem os quadrinhos de Thor", diz o cineasta, responsável por várias adaptações de Shakespeare: Amores Perdidos, Henrique V, Muito Barulho por Nada e Hamlet.

"Levou um tempo até a Marvel e eu termos certeza de que queríamos fazer o mesmo filme", recorda Branagh. Uma de suas primeiras sugestões foi a reformulação no roteiro. No início, a aventura de Thor (inspirado na mitologia nórdica) seria ambientada na era viking. "Mas isso não me permitiria imprimir humor. Eu queria o elemento peixe fora d"água, ao colocar Thor no mundo contemporâneo." De tanto insistir, o diretor conseguiu incrementar a trama, com o choque dos dois mundos.

Ao demonstrar arrogância e despreparo para o trono, Thor é expulso do reino de Asgard por seu pai. Quando desembarca na Terra, revê seus erros e, até aprender a ser um guerreiro de verdade, arranja muita confusão no deserto do Novo México.

"Não tiro sarro dos meus personagens, mas brinco com eles, como Shakespeare fazia." Branagh acredita ter dado certa profundidade ao filme, acrescentando camadas que não o deixam ser "um blockbuster qualquer". "Se posso oferecer algo extra, por que não?"

O diretor defende semelhanças entre Thor e a obra de Shakespeare. "Ele também lidava com mitos antigos. Suas melhores histórias buscavam inspiração em outras histórias. Ainda que ele não lidasse com super-heróis, criava equivalentes, como reis e rainhas. Ou seja, pessoas privilegiadas, que tinham tudo para ser felizes. Mas não eram, por dramas pessoais."

O toque shakespeariano não é incompatível com uma superprodução, na visão do diretor. "Aproveitei para fazer tomadas mais elaboradas e apostar em belas paisagens, coisas que sempre quis fazer. Mas nunca tive dinheiro", conta, citando a sua sequência favorita: a dos guardiões galopando na ponta do arco-íris. "Queria muito ver essa imagem em 3D." O diretor até tentou filmar no formato, mas desistiu, optando por converter o filme para 3D na pós-produção. "Para rodar em 3D é preciso ter doutorado em física", brinca.

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