Maurice Foxhall/Divulgação
Maurice Foxhall/Divulgação

Thomas Adès rege obras de sua autoria à frente da Osesp

Compositor inglês também participa de um debate com o público na série Música na Cabeça

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h09

"É difícil definir a música de uma época, o tempo pode sempre ser relativizado. O que vale é a sua capacidade de escrever obras que digam algo às pessoas, que signifiquem algo para elas", diz o compositor inglês Thomas Adès no fim da manhã de quarta, logo após um ensaio com a Osesp. Ele então faz um silêncio, interrompido por uma gargalhada. "Ou, para ser muito sicero, que ao menos signifique algo para mim."

Adès rege a Osesp de hoje a sábado na Sala São Paulo, onde também participa de um debate com o público na série Música na Cabeça. Acaba de completar 40 anos com motivos de sobra para comemorar. Em 1997, escreveu Asyla, obra encomendada pelo maestro Simon Rattle, na época diretor da Sinfônica de Birmingham. O maestro, anos depois, tornaria-se chefão da Filarmônica de Berlim. Difícil imaginar advogado mais eficiente para um jovem compositor - e, desde então, suas obras têm corrido o mundo, fazendo dele um dos mais badalados autores da atualidade.

Suas peças se pautam pela liberdade na escolha de linguagens - e uma enorme dificuldade técnica, seja nas formas mais intimistas (seu Quinteto para Piano é um bom exemplo), seja em obras de proporção mais grandiosa (caso das óperas Powder Her Face e A Tempestade).

Em São Paulo, ele vai interpretar com a Osesp Asyla e mais duas obras - o Concerto para Violino (com solos de Anthony Marwood) e Polaris (o programa tem ainda O Filho do Rabequeiro, de Leos Janácek, compositor pelo qual Adés reconhece certa predileção). A escolha, diz, se pautou pelo desejo de apresentar ao público um panorama de seu trabalho. "Começar com Asyla, dos anos 90, e termino com Polaris, escrita recentemente, passando pelo concerto para violino, que escrevi há cerca de seis anos. O desejo, claro, é mostrar meu desenvolvimento ao longo desse período, quer dizer, espero que tenha de fato havido uma melhora em algum sentido", diz ele, bem-humorado. Adès, no entanto, reconhece certa dificuldade em explicar a música que escreve - e, consequentemente, não sabe definir exatamente como sua produção se desenvolveu desde o fim dos anos 90. "Talvez seja correto dizer que Asyla é mais elaborada, no sentido de que havia muito o que eu queria dizer e mostrar ao escrevê-la. Dessa forma, as obras mais recentes me mostrariam mais focado em alguns elementos específicos. Enfim, em Polaris ao menos posso dizer que se trata de uma obra mais mística do que estou acostumado a escrever."

Polêmica

Adès nasceu em Londres e fez seus estudos no King's College, em Cambridge. Aos 19 anos, estreou sua primeira peça, uma sinfonia de câmara descrita pelo crítico do Guardian como "impressionante", O sucesso seguinte seria Living Toys, peça que a Orquestra de Câmara da Osesp toca na tarde deste domingo, sob regência de Simone Menezes. Em 1995, compôs sua primeira ópera, Powder Her Face, sobre uma duquesa que, no início do século 20, provocou escândalo na Inglaterra com seus rumorosos encontros sexuais. Dez anos mais tarde, quando voltou ao universo da ópera, foi para adaptar A Tempestade, de Shakespeare, em produção encomendada pelo teatro de sua majestade, o Covent Garden.

"Eu oscilo entre grandes obras e peças mais intimistas por um motivo simples. Depois de fazer uma ópera, por exemplo, a última coisa que você quer é começar outra", explica o compositor, que não se diz preocupado em dialogar com a tradição musical ao escrever, por exemplo, um concerto para violino, gênero explorador por tantos autores. "Conhecer o passado é fundamental, não há dúvida quanto a isso, é o que permite você compreender o seu lugar na história. Mas, uma vez que isso esteja resolvido, a referência passa a ser indireta. Para criar, é preciso que seja assim", completa.

OSESP

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16, 3223-3966. 5ª e 6ª. 21 h; sáb., 16h30 (hoje, 17h30, Música na Cabeça, grátis). R$ 24/ R$ 135

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