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Thiago Ventura afasta agressividade do stand-up ao refletir sobre trajetória na comédia

Em ‘Pokas’, seu novo especial da Netflix, o comediante 'da quebrada' faz um movimento para jogar novas luzes sobre o gênero

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

04 de agosto de 2020 | 05h00

Thiago Ventura é hoje considerado um dos principais humoristas brasileiros – e humorista de stand-up, a prática que, no Brasil, foi popularizada no início dos anos 2000 por grupos como o Comédia em Pé e o Clube da Comédia, com Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Fábio Porchat e Diogo Portugal, entre outros. Nos últimos 15 anos, a comédia brasileira tomou rumos diferentes, e uma das coroações mais significativas até agora é o especial Pokas, o primeiro de Ventura – paulista de Taboão da Serra de 31 anos – naquela que é hoje a maior plataforma de humor stand-up do mundo, a Netflix.

Thiago nasceu na “quebrada”, fez faculdade de administração e trabalhou em banco antes de se voltar para o que sabia ser sua vocação, o stand-up. Conhecido na escola por contar histórias e fazer as pessoas rirem, ele teve contato com o gênero na histórica entrevista de Jô Soares com Diogo Portugal em 2006, quando o comediante curitibano listou apresentações, nomes e clubes de comédia, dando projeção nacional ao gênero. “Quando vi ele fazendo, tive certeza que poderia fazer também”, diz Ventura numa ligação com a reportagem. “Comecei a fazer meus textos com 21, estudava ainda por hobby, e decidi participar de open mics (espaço que os clubes dão para comediantes iniciantes). Foi muito bom na primeira, a segunda ok, mas na terceira não queria fazer mais”, ri. “Foi quando aprendi: se a comédia não é a única coisa que você pode fazer na vida, desista”, diz. Mas ele perseverou.

Baixava vídeos de comediantes nacionais e internacionais, com legendas, para aprender estratégias de set up (preparação da piada) e punchline (frase que arremata), delivery (o modo de contar) e outros gatilhos, mas também para saber o que outros estavam fazendo para não fazer igual. “Eu fazia pastas de anotação e entendia como cada um se comportava no palco”, conta.

Em 2010, começou a compartilhar vídeos de seus próprios sets, e viu sua audiência crescer aos milhões. Pokas é o seu terceiro especial, e o quarto, Modo Efetivo, estava em turnê antes da pandemia de covid-19 fechar os clubes do mundo todo. 

Ventura usa o ensinamento de Dave Chappelle, uma de suas principais influências: “Tudo o que você precisa saber para ser comediante é tudo aquilo que você já sabe”. Fazendo piadas sobre o dia a dia na quebrada e sobre modos de pensar a vida, relacionamentos e família, desse ponto de vista, Ventura trouxe para a comédia brasileira um elemento social novo, inserindo diversidade num universo antes dominado por uma elite cultural pouco ou nada preocupada com a realidade brasileira. Mas ele garante: “O stand-up não quer saber se o comediante é branco ou preto, homem ou mulher, quer saber se ele tem boas piadas”.

Para ele, muito da discussão sobre os “limites do humor” – e sua relação com o “politicamente correto”, um debate importado dos EUA sem levar em conta as particularidades brasileiras – é feita por gente que não entende de comédia. “Não entendem o limite do humor porque não entendem de comédia”, diz, sem citar nomes. “Piada sem graça nem existe.” Piadas sobre racismo e sobre sexualidade, para Ventura, podem ser equivalentes a uma piada sobre escada. Mas todas têm que ser boas. “A comédia é totalmente pessoal. Meu processo busca entender quem eu sou.”

Mesmo assim, ele reconhece que o mercado brasileiro de stand-up alcançou o grande público com a piada “custe o que custar”, se referindo ao programa da Band. “Nessa época, o stand-up foi tachado como algo totalmente agressivo, mas não é isso, nem a pau. O mercado era horrível, ninguém queria ir a um show porque aquilo era conhecido por ser apenas ofensivo. Agora mudou completamente. Essa mudança se deve pelo fato de novos comediantes ocuparem esse lugar. A diversidade deve estar em qualquer lugar: a gente não precisaria nem falar disso se não houvesse um contexto histórico (desfavorável).”

Uma característica do seu ato que vem da escola americana é a importância do texto. “O comediante tem que entender que ele é o texto”, reflete. “Eu tenho uma performance que gosto de aprimorar, mas tenho que entender que sou o texto.”

No seu método de trabalho, ele anota situações e ideias em um aplicativo de celular, e depois as encaixa em momentos apropriados ao assunto de que está tratando – em Pokas, já disponível na Netflix, ele fala muito sobre entender de onde veio e aonde chegou com o seu trabalho, bem como sobre erros do passado e aspectos do presente: “Vocês nunca vão me ver falando de política, sabe por quê? Eu não manjo nada. Sabe de uma coisa que eu manjo? Idiotas”.

Veja trechos de Pokas:

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