Thiago Lacerda encarna um imperador insano em 'Calígula'

Ator comemora dez anos de carreira como o tirano visto por Albert Camus e dirigido por Gabriel Villela

Antonio Gonçalves Filho, do Estado de S. Paulo,

27 de novembro de 2008 | 21h18

O ator Thiago Lacerda resolveu comemorar seus dez anos de carreira personificando o mal. Aos 30 anos, esse ex-campeão de natação escolheu enfrentar um mar de sangue e terror, assumindo o papel do imperador romano que, movido pelo desespero existencial, virou um tirano cruel, nomeou senador seu cavalo, deserdou patrícios em nome do Estado, torturou seus opositores, violentou suas mulheres e ainda abriu um bordel público com as viúvas de suas vítimas. Thiago Lacerda é, a partir de hoje, Calígula, o insano imperador visto pelo escritor e dramaturgo argelino Albert Camus (1913-1960) numa releitura mais que livre de Suetônio. Justo. Também Suetônio foi muito mais um contador de casos que historiador e mesmo Camus jamais pretendeu escrever uma peça histórica. Apenas aproveitou o anedótico do panfleto biográfico de Suetônio e fez dele um tratado niilista, a despeito de jamais assumir sua peça como filosofia. Mas é. Calígula é Nietzsche relido pelo pied-noir Camus.   Veja também:  Galeria de fotos da peça 'Calígula'    "Calígula é uma peça filosófica, embora o próprio autor tivesse dificuldades em assumir isso", confirma o tradutor da peça, editor do Caderno 2 e dramaturgo Dib Carneiro Neto, que, a pedido do diretor Gabriel Villela, não fez uma única concessão ao coloquialismo, mantendo a sintaxe clássica de Camus. Villela, que dirigiu uma premiada montagem da peça de seu tradutor, Salmo 91, queria mesmo que Calígula fosse o coroamento de um sonho acadêmico, uma espécie de conclusão de sua trilogia niilista iniciada com Esperando Godot, de Beckett, seguida por Leonce e Lena, de Büchner, e agora concluída com Camus.   Sem orgias   Portanto, deixem para trás todas as esperanças aqueles que alimentam o desejo de ver no palco cenas de orgia como as de Tinto Brass no filme Calígula, grand-guignol cinematográfico produzido por Bob Guccione com roteiro assinado (e depois abjurado) por Gore Vidal. No máximo, o Calígula de Villela aperta os seios da amante Cesônia (Magali Biff), sua alma gêmea, e dá um meteórico beijo no seu alter ego espiritual, o poeta Scipião (Pedro Henrique Moutinho), além de sugerir uma encarnação da deusa Vênus com insuspeitada sensualidade.   Como Suetônio sugere, o imperador era ambíguo o bastante para confundir até o mais próximo dos patrícios. Camus defende que sua insanidade começa com a morte da irmã e amante Drusilla, mas desde pequeno Calígula deu sinais de maluquice, correndo pelos campos como uma libélula fantasiada de general, o que lhe valeu dos soldados o apelido Calígula, por usar pequenas botas militares.   De qualquer modo, o que está em jogo em Camus não é a megalomania ou o exibicionismo do imperador, mas uma questão metafísica. O subtítulo original da peça era, segundo o caderno de notas do escritor, O Significado da Morte, sugerindo que a morte de Drusilla teria detonado a loucura de Calígula. Por meio dela, este descobriria que o mundo é insatisfatório, cedendo, então, à obsessão demente de alcançar o impossível, a Lua, fetiche dos poetas e signo de uma felicidade inconquistável.   Imperador e ditadores   Quando seu pai Tibério morreu, Calígula foi saudado com esperança pela massa romana, um Barack Obama cheio de virtudes e nenhum vício. Mas ele não tardou a revelar sua vocação de tirano e disputar o posto do mais insano dos Césares. Camus escreveu a peça em 1938. Na época, o jovem dramaturgo de 25 anos não desconsiderou a semelhança entre o imperador e os ditadores que mostravam seus dentes numa Europa dominada por idéias fascistas (Mussolini, Hitler e Stalin). E hoje, qual seria o mais sério candidato a Calígula?   O diretor Gabriel Villela aposta que estamos assistindo à escalada de um fascismo sem rosto, tão ou mais perigoso que o histórico e "movido pela força avassaladora do capitalismo, que entrou em desequilíbrio". Reforçando sua desconfiança, ele recorre na peça a um artifício alegórico, reduzindo o Tesouro romano a uma bolsa de grife já bastante desacreditada, mas que coloca chuteiras nos jogadores de Berlusconi e ainda funciona como signo da opulência do mundo turbocapitalista à deriva.   "Nada como a insegurança para obrigar as pessoas a pensar", conclui o protagonista da peça, Thiago Lacerda, ainda com os restos de sangue da última cena escorrendo pelo peito. "Calígula é um vírus que se adapta a cada época", define, assumindo a classificação de "suicida superior" para Calígula, ou seja, um super-homem nietzschiano infiel à humanidade, que quer reduzir a cinzas justamente por não se reconhecer nela. O homem não é mais o espelho de Calígula, mas a Lua, vista na peça como uma enorme bola metálica que adota como modelo as esculturas do indiano Anish Kapoor. Os sintomas de insanidade do lunático imperador começam exatamente quando ela emerge da escuridão do palco para se transformar posteriormente no lago especular do Narciso de Caravaggio, outra referência artística da direção. Para completar o quadro, Villela foi buscar no compositor sérvio Goran Bregovic, habitual parceiro do cineasta Emir Kusturica, a trilha épica para sua eclética montagem globalizada, que cruza teatro grego com Piscator, Brecht e até o barroco Gabriel Villela dos tempos do grupo Galpão. Uma mistura explosiva.   Calígula. 100 min. 14 anos. Teatro Paulo Autran - Sesc Pinheiros (700 lug.). R. Paes Leme, 195, Pinheiros, 3095- -9400. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 20. Até 22/2

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