Peter Hoffman/NYT
Peter Hoffman/NYT

Theaster Gates, a arte da provocação num mundo de migrantes

O artista americano abre duas mostras simultâneas na White Cube, em São Paulo e em Hong Kong

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2013 | 19h12

É emocionante a história pessoal do artista norte-americano Theaster Gates, de 39 anos, a grande revelação da última Documenta de Kassel, que abre em setembro duas exposições simultâneas em filiais da galeria White Cube – a primeira na terça, em São Paulo, e a outra em Hong Kong. Afrodescendente, ele cresceu numa família grande, na zona oeste de Chicago, enfrentando uma vizinhança violenta. Para complicar a situação, Theaster foi estudar na zona norte da cidade e passou a ser ainda mais discriminado. Foi uma frase do escritor James Baldwin que o salvou. Baldwin, que sofreu preconceito racial e foi alvo de homofóbicos, disse que a única vantagem de viver entre dois mundos é que você acaba desenvolvendo uma dupla consciência. E Theaster tem consciência de sobra: um dos artistas mais disputados pelo mercado, ele aplica o dinheiro que ganha na recuperação de imóveis degradados, tornando o mundo mais bonito. Essa é sua arte – e tudo deriva dela.

Theaster lembra muito o personagem de um filme cult de 1970, The Landlord (exibido no Brasil como Amor sem Barreiras), dirigido por Hal Ashby. Como Elgar, o senhorio do filme, ele também comprou prédios em decadência para reformar e transformar em moradia de amigos menos afortunados. Mas, ao contrário de Elgar, não partiu para a empreitada por ganância. No filme de Hal Ashby, o personagem interpretado por Beau Bridges quer despejar os inquilinos negros de um mafuá no Brooklin, restaurar o imóvel e fazer dele sua moradia luxuosa. Mas o milionário e triste Elgar acaba comovido com a miséria daqueles deserdados e acaba  integrando-se ao ambiente, para desgosto de sua família wasp.

“Conheço o filme de Ashby, pois sofria o mesmo tipo de preconceito”, diz Theaster, por telefone, ao Estado. “Na vizinhança, meu cabelo era normal, mas não na zona Norte de Chicago.” Até certo cuidado com as roupas que usava ele tinha, para não ser confundido com garotos das gangues locais – uma história parecida com a dos imigrantes de West Side Story.

O fato é que Theaster sobreviveu, estudou design, planejamento urbano e tornou-se um artista consagrado, eleito no ano passado como o principal inovador da cena visual americana pelo Wall Street Journal. Os visitantes da White Cube poderão, a partir de terça, conferir os fragmentos da instalação que ele produziu para a Documenta de Kassel, a principal mostra alemã: 12 Baladas para a Casa Huguenot. Theaster restaurou um prédio histórico decadente no centro de Kassel com materiais retirados de um casarão abandonado na área do Dorchester Project – um projeto de renovação de 32 casas na parte degradada de Chicago, que tinha como meta a criação de um centro cultural.

Outras das 12 obras que ele mostra em São Paulo é o “riquixá da migração”, série de objetos sugeridos por uma recente visita de Theaster a Porto Príncipe, no Haiti, onde o uso de carrinhos de mão (para transporte de mercadorias e bens) levou-o a associar esses veículos improvisados à migração compulsória no mundo globalizado. “Como os Huguenots, expulsos por motivos religiosos e obrigados a uma recolocação em países protestantes, os miseráveis vagam hoje em busca de um porto seguro, desta vez empurrados pelo capital.”

A retórica de Theaster, ele reconhece, é radical e política. Ele, porém, não se incomoda com rótulos. Quer aplicar o dinheiro que ganha com arte em projetos sociais e educacionais. E não tem medo de alegorias ou metáforas. Uma das séries em exposição, lembra o artista, embora não tenha sido concebida para tal fim, tem tudo a ver com as recentes manifestações de rua no Brasil. A série Strata, como o próprio título indica, traduz a estratificação social e remete diretamente aos conflitos entre policiais e manifestantes pacíficos que lutavam pela igualdade racial no Alabama, em 1963. “Os policiais usaram jatos d’água para reprimir e dispersar a multidão e eu resolvi usar as mangueiras de incêndio empilhadas como um comentário formal desse episódio.” Theaster revela que o trabalho político do alemão Joseph Beuys foi uma de suas fontes de inspiração, assim como o dadaísmo de Marcel Duchamp.

 

MY BACK, MY WHEEL AND MY WILL

Galeria White Cube. R. Agostinho Rodrigues Filho, 550, 4329-4474. 3ª a sáb, 11 h/19 h. Abre dia 3. Até 2/11.

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