The Roots vai à música clássica

Sensação do hip hop em 2011, grupo recorre a orquestras para concluir álbum conceitual sobre a vida de um criminoso

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

Numa época em que 'on demand' é a palavra de ordem, difícil imaginar que um disco ainda tenha o valor de uma obra completa, com início, meio e fim. Os próprios artistas já se adaptaram à lógica do mercado: lançam músicas soltas, sempre na internet, como num eterno 'esquenta' para algo que já não é mais tão cultuado assim.

Na contramão das práticas vigentes, a banda The Roots volta à cena com o álbum mais difícil de sua sedimentada carreira. Foram necessários quase 25 anos de estrada e 12 registros nas costas para a turma do inquieto Ahmir ?uestlove Thompson lançar um trabalho conceitual, destes que valem ouvir de ponta a ponta para absorver o todo.

Com nome apropriado de uma canção de 1969 do Guess Who, undun (assim mesmo, em minúsculo) funciona como um filme: sua história é contada de trás para frente, do fim para o início. O mote já não é tão inédito, mas está diretamente associado à história do hip hop. Em 14 faixas, como se fossem atos de uma sombria narrativa, acompanhamos a biografia do personagem fictício Redford Stephens, morto aos 25 anos. Pobre, negro, escolheu a criminalidade como meio de sobrevivência.

"Imaginávamos Redford como o Avon Barksdale, da série The Wire. Ele é um cara bom, que poderia ter feito faculdade, sido um grande engenheiro ou algo assim. Mas ele faz uma escolha errada e paga por isso", explicou o baterista e bandleader ?uestlove à Spin. O nome do protagonista foi tirado de uma faixa do álbum Michigan, do cantor indie Sufjan Stevens. O próprio faz uma aparição no disco com uma versão instrumental de Redford.

Assaltos, envolvimentos com drogas, aquisição de armamentos, tudo poderia soar clichê numa obra sobre a violência e o submundo do crime, mas com o lirismo do cantor Black Trought - principal voz do octeto da Filadélfia - undun ganha uma abordagem existencial. Cada canção busca reconstituir os diálogos internos do personagem. "Ele é um compilado de umas seis pessoas que a gente conheceu na Filadélfia. Toda a família do Tariq foi igual a esse cara. Tariq foi o único que escapou. A narrativa atinge mais a ele do que qualquer outro membro da banda", contou ?uestlove. A ideia, segundo ele, "era dar uma lição de moral, mas sem o clichê do 'cara que faz a coisa errada e simplesmente morre'".

O disco traz o já inconfundível mix do groove do soul da década de 70 com a levada hip hop, mas com uma novidade: arranjos executados por uma orquestra, frutos da recente experiência de ?uestlove como curador da Philly-Paris Lockdown - projeto que mescla obras de compositores eruditos como Stravinski e Debussy com a linguagem do hip hop e do jazz. A prova da intersecção impressionista fica mais evidente nas quatro peças instrumentais que encerram o álbum, com direito a uma suíte com o piano avant-garde de D.D. Jackson, temperado pela bateria free jazz de ?uestlove.

O rapper ainda afirmou que o trabalho do Roots como banda fixa do programa do Jimmy Fallon também foi fundamental. "A maioria das pessoas no hip hop fazem o que fazem para sobreviver. Agora temos o conforto para fazermos os álbuns que queremos."

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