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The Kills resgata o som da inocência em show em São Paulo

Banda tocou várias canções do último álbum para público desencanado e iniciado

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2011 | 03h09

Alison Mosshart encheu as mãos de água e molhou os braços e a testa. O Beco estava um forno. Ela tava com o cabelo vermelho comprido, calça skinny muito apertada e botinha preta. O ventilador soprava o cabelo dela para adiante e mal se via seu rosto no começo do show. No lado esquerdo do palco, o roadie com uma lanterna na testa tentava recolocar uma corda da guitarra que tinha estourado durante a execução de Heart Is a Beating Drum, e os garotos filmavam a cena com seus celulares. Sorridente, Alison deu dois autógrafos para as garotas da frente, mas a caneta Pilot caiu ao chão e ela, demonstrando habilidade de jogadora de snooker, a empurrou para a frente com um teco de dedo.

The Kills no Beco, na Rua Augusta, na noite de anteontem, foi uma jornada de rock de garagem da mais pura inocência. Ao fundo do palco, havia um grande pano com estampa de oncinha cobrindo a parede. O público, desencanado e iniciado, vibrava já na primeira tossida da drum machine, antecipando a canção que viria a seguir. Gente como o músico Tatá Aeroplano e o editor Rogério de Campos, da Conrad, estavam lá para conferir o show.

Jamie Hince suava feito um boxeur. Ele nem de longe toca guitarra como Jack White (sempre rolou essa comparação dos Kills com o White Stripes), mas arranca texturas minimalistas de suas máquinas e, quando necessário, espanca seus instrumentos sem clemência. Alison Mosshart não tem a fúria de Karen O, e sua performance desgrenhada não sugere um cânion existencial, como PJ Harvey. Mas berra seus versos com convicção e honestidade - e bastante sensualidade.

Alison tocou percussão só em duas músicas. Sua guitarrinha é inócua, mas é charmosa e combina com suas intenções. Do disco novo, Blood Pressures (abril de 2011), tocaram até que bastante canções: DNA, Heart Is a Beating Drum, Pots and Pans e The Last Goodbye.

Jamie Hince esmurrou a guitarra, ameaçou derrubar uma caixa de amplificação, grunhiu no microfone. Alison ajoelhou e rodopiou sobre o próprio corpo, e só pediu para o técnico aumentar o som de seu microfone na primeira música. No resto ela nem quis saber: esgoelou-se.

A sequência final foi de arrasar. Depois que Alison cantou Black Baloon, as meninas jogaram alguns balões pretos no palco. Pots and Pans derramou um caminhão de melancolia na pista. Em Sour Cherry, agitação frenética antes de a dupla se retirar para o bis.

 

 

The Last Goodbye, balada acústica de assovios e mais de mil giletes na pele, é descolada de uma costela de Patti Smith. "Ouvi tudo que você disse e amo você de paixão", canta a garota. "É o último adeus, eu juro/ Não posso sobreviver a um amor de meio coração que nunca será inteiro." Ao final, era possível ouvir com nitidez os barulhos abafados da vida noturna na Rua Augusta.

Como o New Order, o Kills constrói uma melancolia que se dança, uma tristeza autofágica. The Last Day of Magic é um bom exemplo disso. Fuck the People e Monkey 23, que fecharam a noite, foram direto à fonte: as duas músicas são puro Velvet Underground em sua explosão inicial. A era da pura inocência.

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