Textos de um ateu estão impregnados de religião

A formação religiosa do cenógrafo ediretor Gianni Ratto - estudou em diferentes colégios de padresna Itália - marca fortemente esse seu primeiro livro de contos,Crônicas Improváveis. Num dos colégios que estudou foiobrigado a engolir, literalmente, o papel no qual escrevera umapoesia satirizando um padre, poesia que correra de mão em mãocom grande sucesso entre os colegas.Ratto faz parte daquela geração que se rebelou contrauma religião católica repressiva e autoritária, sem no entantoescapar da introjeção de alguns valores recebidos através daformação cristã, como a constante busca da perfeição, datranscendência e de um sentido maior para a vida do que a merasobrevivência. Valores que perpassam todos os seus sofisticadoscontos. "Você não vai encontrar banalidades nesse livro, comisso eu também concordo", diz Ratto.A pureza é tema de Agnus Dei, o primeiro conto dovolume. é sobre o dia a dia de 12 jovens freiras num convento nazona rural, afastado de qualquer lugarejo. Num dado dia, elasabrigam uma pastora que se perdera do rebanho e da família.Igualmente jovem, a pastora tem pureza semelhante à das freiras.Mas enquanto elas, ainda ignorantes do desejo, aceitaram damadre superiora a explicação da impureza do corpo - e dosdesejos que desperta -, a pastora aprendera a aceitar como puroo corpo, cujas necessidades vitais conhece por meio da natureza,da observação de seu rebanho.Em Agnus Dei, Ratto une de forma insólita aquilo quea religião separara. Numa história de grande delicadeza e finalmeio fantástico, as freiras, sem deixarem de ser puras, assumemintegralmente sua condição humana e feminina - tornam-semulheres e mães - do cordeiro de Deus. "Passei quatro anos emcolégios de padres, tive contatos múltiplos com a religião etudo isso ficou dentro de mim. Alguns dogmas intocáveis dareligião sempre me incomodaram, entre eles o da virgindade deMaria", diz Ratto.Mas nem todos os contos envolvem diretamente religião. Écomovente, e muito bem construído, Uma História de Amor,conto cujo tema é a profunda solidão de um cego. Também asolidão, desta vez de uma velha cantora de ópera às vésperas damorte, é o tema da bem urdida Dueto. E a bizarra relaçãoentre um homem e um gata - o animal mesmo - acaba falando muitoda relação homem e mulher no conto Moto Perpétuo, no qualeros e tanatos andam juntos.Vale destaque ainda o requintado A Ilha, que àprimeira vista narra a história de um amor incestuoso, jamaisrealizado, entre pai e filha. Embora seja deliciosa a narrativada teia sutil de pequenos gestos, involuntários ou não, que vãodando forma ao desejo entre ambos, o conto vai além. Nele, Rattonarra uma volta à natureza. O mito do incesto é fundador dacivilização. De todas elas. Os laços de parentesco representaramsempre a primeira forma de organização social. Cada tribo, cadapovo, tem uma história mítica sobre o tema do incesto. E quandoa barbárie se instala, pais estrupram filhas - as periferias dascidades brasileiras estão cheias de histórias assim.Mas o incesto em A Ilha não é uma avanço pelabarbárie, mas um recuo aos primórdios da humanidade. Não poracaso, a história se passa numa casa "descoberta" pelo pai de60 anos, ao ficar viúvo, no meio de uma floresta. Sua filha de40 anos, também viúva, vai morar com ele. O rompimento dabarreira do desejo é uma das etapas na reintegração de ambos ànatureza - ao fim uma integração total, como elementos. Não épor coincidência que, cuidando do serviço da casa, está um casalde índios. Nesse conto Ratto nos diz que a civilização pode sertão frágil quanto a parede de vidro que separa o quarto do pai eda filha e igualmente bela na sua capacidade de filtrar erefletir a luz da natureza que a cerca.Embora afirme ter construído seus contos comoespetáculos, chama atenção a parcimônia no uso dos raríssimosdiálogos, todos "a adivinhar nas entrelinhas" como observaLuiz Carlos Cardoso, na orelha do livro. Ratto pegou gosto pelanarrativa literária. Já tem novos contos na gaveta. Além daautonomia de criação, a literatura talvez tenha com relação aoteatro - arte efêmera por natureza - a vantagem da perenidade."A escritura tem a vantagem de deixar o autor sozinhocom a palavra. Mas isso de sobrevivência à morte é bobagem. Abrauma enciclopédia ao acaso. Você vai ler, fulano de tal, escreveutais e tais livros, fez sucesso ao seu tempo. Quem é? Ninguémsabe. Muitas vezes me perguntam o que gosto mais de fazer,cenografia ou direção. Não faço essa separação de valores. Cadasetor da criação se comporta com total e absoluta autonomia etem igual importância."Além de escrever seus livros, Ratto atua como curador noProjeto de Formação de Público da Secretaria Municipal deCultura, selecionando textos e orientando montagens de peçaspara serem apresentadas gratuitamente nas escolas. E não deixoude acompanhar o panorama teatral paulistano. "Recentemente fuibafejado pela sorte com a presença de dois espetáculo deextraordinária qualidade em uma só semana, Hamlet, do PeterBrook, e o Arlecchino, do Piccolo."As pessoas me perguntaram se eu gostei do Hamlet doBrook. E eu dizia, não, a palavra gostei não funciona nessescasos. O espetáculo tem defeitos, a gente sabe que tem, mas nãoé isso que interessa e sim a concepção, o conceito doespetáculo. Interessa aquela visão despojada, sem um adjetivo,sem uma vírgula a mais. Eu tiro o meu chapéu. Para chegar a essaessencialidade é preciso uma depuração de anos."

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