Textos de Philippe Ariès revelam autor que fugiu das batalhas acadêmicas

'O Tempo da História', lançamento da Editora Unesp, é uma boa porta de entrada para capturar as nuances desse estilista do pensamento

Rodrigo Petronio, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 20h12

Uma criança se deslumbra com livros de História. Habita um pequeno oásis. Não imagina que será exilada desse paraíso privado, justamente ao se deparar com essa mesma História. Face a face. Em 30 de Julho de 1940, as tropas nazistas chegam a Paris e tem início o período Vichy. Essa criança é o historiador Philippe Ariès. Quem o expulsou do minúsculo éden da biblioteca dos pais foi o século 20. 

Mais do que em outros tempos, no século 20 fomos violentamente inseridos no processo histórico. A História deixou de ser uma descrição dos fenômenos. Passou a ser uma forma de engajamento. Justo nesse século, Philippe Ariès reservou para si uma das tarefas mais delicadas que um historiador poderia se propor. Ousou encontrar alternativas às orientações ideológicas hegemônicas na historiografia: a marxista e a conservadora. 

A recente publicação de O Tempo da História pela editora da Unesp, com ótima tradução de Roberto Leal Ferreira e prefácio de Roger Chartier, é uma boa porta de entrada para capturar as nuances desse estilista do pensamento. A escrita personalíssima de Ariès não surgiu de batalhas acadêmicas. Surgiu da paixão. De um corpo a corpo com a História. Desde criança. Leitor obsessivo de Jacques Bainville e Charles Maurras, representantes da Action Française e posteriormente defenestrados pela historiografia de esquerda, Ariès procurou sempre situar-se em um espaço teórico indecidível. 

Essa escolha lhe conferiu um olhar privilegiado sobre a realidade e os documentos. E também lhe custou o preço do isolamento. Por meio dela, pôde capturar a vida em uma região aquém e além das instituições. 

Não lhe comoviam impérios, reis, palácios. Nada de grande. Interessaram-lhe os costumes, o cotidiano, a intersecção entre público e privado. Compreender as motivações subjetivas de grupos era mais importante do que definir a articulação superestrutural desses grupos em uma esfera abstrata chamada sociedade. 

A partir desses elementos, Ariès concebeu seu “método existencial”. Apenas uma apreensão existencial dos personagens históricos seria capaz de revelar a série descontínua de estruturas mentais que se sucedem no tempo. 

A História não se faz de macroestruturas políticas, econômicas, ideológicas. Tampouco é quantitativa, pois todas as estatísticas buscam a média. E Ariès é um veemente crítico das médias. 

Os eventos históricos nunca são a conciliação de opostos em uma média. A vida é feita de singularidades. Elas são irredutíveis umas às outras. E toda singularidade é, em si mesma, irredutível a um sistema. 

A História é o conjunto diferencial de formas de vida. É o chão onde pisamos. O modo como vivemos, amamos, morremos. Por isso, além de sua monumental História da Vida Privada, Ariès concebeu duas obras fundamentais: História Social da Criança e da Família e Sobre a História da Morte no Ocidente. Infância, família, morte, comunidade, intimidade. O gosto por esses temas veio de dois mestres: Lucien Febvre e Marc Bloch, ambos reda Escola dos Annales. 

Febvre dedicou-se a um minucioso levantamento da relação entre crença e descrença na Renascença, por meio de uma análise do ateísmo na obra de Rabelais e dos conceitos de sagrado e profano em Marguerite de Navarra. Bloch, por sua vez, criou uma morfologia das formas mentais da Idade Média. E o fez notadamente a partir de questões como a taumaturgia dos reis, ou seja, sua capacidade de cura. 

Em ambos, a História não aparece como um sistema totalizador. Aparece como metonímia: inferir o todo por meio da partes. Com ambos, Ariès aprendeu a “psicanalisar os documentos”. Mostrar a face subjetiva das decisões dos agentes históricos. 

Pensar assim é conceber a História como conjunto descontínuo de crenças, costumes, valores. O modo de vida das pessoas comuns e a face mortal dos homens extraordinários. Esse parece ter sido seu horizonte. 

Desse modo, Ariès deu sua contribuição decisiva à chamada história das mentalidades, da qual foi um dos criadores. E cujos desdobramentos persistem hoje na micro-história e na história do cotidiano. E encontraram repercussão em historiadores Georges Duby, Jacques Le Goff, Jean Delumeau, Emmanuel Le Roy Ladurie.

Nesta obra, Ariès passeia por alguns desses temas. Analisa o sentido do engajamento do homem moderno na História. Esmiúça a literatura de testemunho. Critica a emergência do cientificismo na historiografia. E define seu método existencial em dois brilhantes ensaios. 

Em um ensaio polêmico, a historiografia marxista e a conservadora se equivalem. Uma idealiza o futuro. A outra, idealiza o passado. O método marxista erra ao tratar o devir da História a partir de leis. Embora materialista, a teoria de Marx pressupõe um sistema que unifica a História em um todo coeso. Os conservadores erram por idealismo, que os impede de compreender a natureza mesma dos fatos históricos. 

Talvez esse embate seja um de seus pontos fracos. Um aspecto mais datado de sua obra. Em 1954, Ariès não conseguiu intuir a obsolescência iminente desse dualismo. Afinal, em qualquer tempo, o destino de todo dualismo é envelhecer. Entretanto, mesmo nesse equívoco há sabedoria. Porque nessa dupla crítica, Ariès conseguiu um prodígio. Paradoxalmente, ao criticar marxistas e conservadores, conseguiu unir dialética e ceticismo em um único gesto crítico. Ou seja: o melhor da tradição marxista e o melhor da tradição conservadora. 

Em tempos pós-ideológicos de superficialidade intelectual de ambos os lados, se é que ainda lados existem, essa pérola é apenas um dos tantos ensinamentos desse mestre de sutilezas. 

Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, professor da pós-graduação em Argumento e Roteiro da Faap e do Museu da Imagem e do Som (MIS).

O TEMPO DA HISTÓRIA

Autor: Philippe Ariès

Tradução: Roberto Leal Ferreira

Editora: Unesp (350 págs., R$ 48) 

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