Texto inédito de Plínio Marcos fala de impotência sexual

Em 1977, quando o cinema nacional vivia a fase áurea da pornochanchada, Nuno Leal Maia protagonizou O Bem Dotado - O Homem de Itu, com direção de José Miziara. O filme firmou-se como sucesso de bilheteria na época - e até hoje é seguidamente reapresentado, principalmente pelo Canal Brasil. Ao lado de Nuno Leal Maia na tela estava a atriz Aldine Müller. Agora, 25 anos depois, Nuno e Aldine voltam a se encontrar, desta vez no palco, na montagem de A Dança Final, última peça escrita por Plínio Marcos, em 1997, que estréia nesta quinta-feira no Teatro Itália, sob direção de Kiko Jaess. Na peça, Nuno vive Menezes e Aldine, Liza, um casal de classe média ascendente, com dois filhos, que se prepara para festejar 25 anos de casamento. Detalhe: o personagem de Nuno vive o drama da impotência sexual. "Isso foi uma coincidência muito engraçada! É como se o homem e a mulher de Itu tivessem ficado broxas depois de 25 anos", ri o ator. "O Menezes é o típico machão. Um homem que encara o pênis como o centro de sua vida, e não se conforma com o fato de ficar impotente logo quando consegue uma posição social." A impotência sexual de Menezes altera totalmente a sua vida e a relação do casal. O problema se agrava quando Liza resolve festejar as bodas de prata com uma festa tradicional, com direito a igreja, salão de festas, bufê, orquestra, segunda lua de mel em Poços de Caldas e Agnaldo Rayol cantando a Ave Maria. Menezes, porém, não quer saber de comemorações. Tem medo de ser ridicularizado se o seu problema sexual porventura cair na boca das pessoas. "A Dança Final é uma comédia, mas tem diálogos bem cáusticos e realistas, típicos de Plínio Marcos", afirma o diretor Kiko Jaess. Na peça, Plínio Marcos faz uma aguda crítica à moral burguesa da classe média, descrente e sem ânimo com a corrupção política e com o que ocorre na economia e na segurança pública. Nuno Leal Maia e Kiko Jaess retomam uma parceria que começou na peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, em 1974, ao lado de Eva Wilma, Pepita Rodrigues e Ednei Giovenazzi. Em 1986, ambos estiveram novamente juntos na montagem de Os Amores de Tennessee Williams, peça de Paulo Wolf. A Dança Final (1997) foi o último texto teatral deixado por Plínio Marcos (morto em 99), e a única comédia da carreira do dramaturgo santista. Na época, Marcos e sua mulher, a jornalista Vera Artaxo, haviam deixado o apartamento (minúsculo) em que moravam no Edifício Copan, no centro da cidade, e se mudado para um prédio de alto padrão no bairro de Higienópolis. "Éramos vizinhos. E o Plínio vivia criticando os hábitos da classe média que via nas ruas", conta Jaess. "Um dia, Plínio me disse: ´Olha só o que fiz para você encenar.´ Acabei levando quatro anos para montar a peça por falta de patrocínio, e infelizmente o Plínio morreu antes." Serviço: A Dança Final. Teatro Itália (Av. Ipiranga, 344, tel. 3257-9092). Quinta, sexta e sábado às 21 h; domingo, às 20h. Ingressos: quinta, sexta e domingo, R$ 20; sábado, R$ 30. Até 21/06.

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