Texto escrito pelo diretor de teatro Márcio Aurélio

Texto escrito pelo diretor Márcio Aurélio para o programa da peça A Metamorfose de Amor, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso.Hic Et NuncRicardo Fernandes, a quem somos muito gratos, é o responsável pela criação deste espetáculo. Foi ele que há anos atrás, no papel de curador do Festival Internacional de Teatro de São Jose do Rio Preto convidou a Cia Razões Inversas para criar performance a partir de A Metafísica do Amor e da Morte de Schopenhauer. Ficamos todos estes anos com o desejo de retomar o projeto. A cada vez que retomamos o trabalho em nossas discussões sentíamos a falta de figura feminina para a sua realização. Por um tempo tivemos a presença da atriz e bailarina Andréa Posi, desejo este que não se realizou devido à perda precoce e inesperada de nossa querida amiga.O tempo passou. Fomos agraciados com o premio Myriam Muniz. Retomamos o trabalho. Durante o processo de criação, telefona Marilena Ansaldi querendo falar de uma idéia que pretendia realizar cenicamente, sem ter conhecimento de nosso trabalho e sobre o que estávamos realizando. Hoje ela é a presença do feminino conosco. É alvo de muito orgulho para a Cia Razões Inversas contar com sua presença, ou contar mais uma vez com Marilena, juntamente conosco, nos nossos palcos.O espetáculo é construído sobre diferentes matrizes como música e texto de Vivaldi e textos de Schopenhauer, entretanto, nosso caminho foi construído a partir de A tentação de Santo Antão de Gustav Flaubert, texto esse que provoca uma idéia de realidade pelo excesso. Alguns sopros especiais como matérias de jornais foram transformados na trilha sonora do solitário num diálogo com a contemporaneidade.Dicas cotidianas que refazem um mundo onde o mito se renova. São como mentiras que se materializam e se transformam a partir do universo poético de cada um em verdades através de relato fantástico. Não esqueçamos que mýthos em seu significado básico quer dizer palavra, enunciado verbal, narrativa fabulosa, não histórica ou inverídica. Não esqueçamos a expressão mýthous légein que equivale a dizer mentiras ou fabular.A idéia primeira pode nos levar ao jardim do éden, mas a poesia nos leva às vezes, aos jardins do nonato. O mundo construído como obra poética. Não nos esqueçamos que os poetas são chamados de mentirosos, talvez por dizerem o que falta. Mas na medida em que este sentimento é radical mostrador das faltas primordiais, ele é o ponto onde a mitologia se revela. A idéia de jardim, qualquer que seja, serve de inspiração para esta cena, e de suporte dramatúrgico. Não temos personagens. Temos figuras. Ele. Ela. Ele, assim como o Antão de Flaubert, não é ninguém. É a evocação da figura mais ilustre da igreja antiga que viveu 105 anos (251-356)Ela, Só feminino. Figura mítica e natureza evocadora da vida e da morte.Não nos esqueçamos:- O maior mal é o mal de haver nascido.

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