Texto de Jorge Mautner ganha montagem teatral

Ator, músico, compositor, romancista, roteirista de cinema. Parece não haver limites para a criatividade de Jorge Mautner. Em 1962, ele já ganhava o Prêmio Jabuti de escritor revelação pelo romance Deus da Chuva e da Morte, mas estourou mesmo para o grande público na década de 70, quando Gilberto Gil gravou Maracatu Atômico.Mautner jamais deixou de ser um artista inquieto. Sua mais nova incursão é agora pela dramaturgia. Na sexta-feira estréia na Sala 4, do CCSP, a encenação de seu texto Vênus Castigadora do Amazonas, dirigida por Gustavo Machado. Não é a primeira peça escrita por Mautner - outras já mereceram até leitura dramática -, mas é a primeira vez que um texto seu ganha montagem teatral."Até eu estou curioso para ver o resultado", afirma o bem-humorado diretor, o mesmo que se orgulha de ter escrito Pagarás com Tua Alma, um "autêntico dramalhão do século passado". Solicitado a realizar uma tarefa quase impossível, definir o gênero do espetáculo, Machado decidiu chamá-lo de "comédia existencialista do absurdo". "O espetáculo é quase um sarau literário. Mautner atira em todas as direções. Há desde a mais alta filosofia até a bagaceira total" avisa. "Ele mistura com total liberdade poética Nietzsche com Guilherme Arantes que, segundo ele, estava certo ao chamar o nosso planeta de Água e não Terra."Majeca Angelucci e Cláudio Carneiro integram o elenco do espetáculo que tem como ponto de partida uma hecatombe nuclear. Vênus é a única sobrevivente, uma mulher brasileira que vivia numa fortaleza à prova de irradiação, localizada no centro da floresta amazônica. O abrigo fora construído por seu amante milionário que, por ironia do destino, estava fora dela no momento da explosão.Aparelhada para ser um palácio confortável, a fortaleza conta um exército de robôs, entre eles um especial, quase humano talvez demasiado humano, que passa a ser o companheiro da Vênus. Por pouco tempo. Ele avisa que os restos do planeta serão em breve, tragados por um buraco negro.Gustavo Machado traduziu cenicamente essa idéia deixando em cena apenas o casal de atores. "Tínhamos de partir da premissa de que só existe essa mulher na face da Terra. Como traduzir isso no palco? Os atores operam o som e a luz. Não há mais ninguém no espetáculo além dos dois. E o público passa a ser o exército de robôs."

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