Texto de Clarice ao teatro surpreende

Uma obra impossível de ser adaptadapara o teatro sem graves perdas. É a convicção da grande maioriados leitores de A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector.Convicção quebrada pela montagem atualmente em cartaz no CentroCultural Banco do Brasil no Rio, um desses momentos de rarafelicidade no teatro. Com adaptação assinada por Fauzi Arap,direção de Enrique Diaz e interpretação de Mariana Lima, omonólogo A Paixão Segundo G.H. estreou no CCBB em outubro edeve vir para São Paulo em março. A experiência dos poucos e privilegiados espectadores -são apenas 25 por sessão - começa antes mesmo de chegar ao localda encenação. De arquitetura deslumbrante, o CCBB tem doisteatros bem equipados. Mas para assistir ao monólogo é precisopercorrer um estreito corredor que dá acesso a uma salinhalocalizada nos fundos, perto dos elevadores de serviço, onde aatriz já aguarda o público. Estamos diante de uma mulher burguesa, uma escultora,que viveu uma experiência ímpar. Num dia de ócio, decidiu fazeruma arrumação na casa. Ao entrar no quarto vazio da empregadasente-se atirada para fora de seu mundo, perde suas referências,sua identidade, desorganiza-se, e transcende - toca o mistérioda existência. Viver não é relatável, diz a personagempreparando o leitor/espectador para conduzi-lo em sua vivência.Ela não narra o que aconteceu, porque não é possível, ela criao que aconteceu, diz Enrique Diaz. Neste viver não é relatável está também o ponto departida da encenação. A começar pela atuação de Mariana Lima que desde o primeiro momento, surpreende e impacta o espectadorpela forma como se apropria do texto, pelo domínio da cena, pelamais absoluta posse de palavras e sentimentos desde os maissutis até os mais viscerais. Também a concepção de Enrique Diaz conduz o espectadorpara ser cúmplice de uma vivência e não de um ´relato´. Aprimeira sala é o closet da casa da personagem - araras repletasde roupas, chapéus, sapatos. Desse local colorido e repleto deobjetos, personagem e espectadores passam juntos para umcorredor, ou seja, saem de um cômodo aconchegante para esperarem pé, num espaço impessoal. Dali seguem para outra sala, oquarto da empregada, que joga a personagem no vazio seco daexistência. Ali vê-se uma cama, um armário, mesinha e ascadeiras que acomodam o público numa das paredes. Há ainda umoutro quartinho, com as reais dimensões de um quarto deempregada, ocupado pela atriz na parte final do espetáculo, cujaimagem é projetada no quarto maior. Projeções, objetos de cena, figurinos - não há economiade recursos, mas nada fica excessivo ou deslocado nessa montagemque conduz o leitor pelo labirinto percorrido por G.H. Umamontagem a um só tempo filigranada e arrebatadora, comoobservou o crítico do Jornal do Brasil Macksen Luiz, dessasque ficam para sempre na memória.

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