Teve troféu pra todo mundo|

20ª edição do Cine Ceará foi generosa ao contemplar com prêmios a grande maioria dos concorrentes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2010 | 00h00

O retrato de um sofrido rito de passagem adolescente, O Último Verão de La Boyita, da Argentina, foi o grande vencedor do 20.º Cine Ceará. A produção, dirigida pela cineasta Julia Solomonoff, recebeu o troféu Mucuripe de melhor filme e faturou ainda as estatuetas de som e montagem. É um bonito e delicado trabalho, que narra a perda da inocência de uma garota da cidade em um ambiente rural. A produção tem méritos e não se pode contestar sua vitória. A não ser que se considere que o júri, talvez, tivesse alternativas ainda melhores.

Por exemplo, o espanhol A Mulher Sem Piano, de Javier Rebollo, que ficou com os troféus de fotografia, roteiro e direção. É trabalho feito de silêncios e subentendidos e narra a pequena aventura noturna de uma dona de casa frustrada, em uma Madri solitária. Pode-se perguntar de que maneira pode um filme ter a melhor fotografia, o roteiro mais convincente, ser o mais bem dirigido e, ainda assim, não merecer o prêmio principal. Esse tipo de alquimia é recurso comum dos júris para dividir prêmios. Usual, embora questionável, pois afrouxa o rigor da premiação.

De qualquer forma, o perfil dos premiados mostra que houve divisão interna em torno desse dois longas, considerados os melhores da seleção proposta pelo festival a um corpo de jurados formado pelos cineastas Roberto Farias (presidente) e Miguel Mato, da Argentina; pelos produtores José Vargas (Colômbia) e Luis Reneses (Espanha), e pela crítica francesa Sylvie Debs.

Esse júri mostrou vocação distributivista ao premiar todos os concorrentes, com exceção do mexicano Alamar. Assim, o documentário Memória Cubana, de Alice Andrade, levou o Prêmio Especial do Júri e O Último Comandante, de Vicente Ferraz e Isabela Martínez, ficou com o troféu de ator, dividido entre Damian Alcázar e Alfredo Catania. Já o cubano Lisanka, de Daniel Diaz Torres, rendeu o prêmio de atriz a Miriel Cejas. O brasileiro Estrada para Ythaca, assinado em conjunto pelos diretores Guto Parente, Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, ganhou o troféu de melhor trilha sonora. Do Amor e Outros Demônios, de Hilda Hidalgo, recebeu o prêmio de direção de arte.

Como a seleção de concorrentes era boa, não se pode contestar a opção dos jurados pelos vencedores. Mas pode-se apontar uma tendência, além do distributivismo: a opção por obras mais lineares do ponto de vista estético. As produções mais ousadas ficaram em segundo plano. Estrada para Ythaca, um estimulante sintoma de renovação do cinema brasileiro, recebeu um mero troféu para trilha sonora. E o mix de documentário e ficção Alamar, de Pedro González-Rubio, teria saído de mãos abanando caso a crítica não lhe tivesse dado seu prêmio, reconhecendo nele a ousadia da proposta e a originalidade do olhar sobre a relação entre um filho e seu pai pescador num santuário ecológico mexicano. É obra que merece melhor visibilidade e discussão.

Entre os curtas, o cardápio não pareceu tão brilhante, mas havia bons concorrentes. O destaque foi para Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro, premiado como melhor filme pelo júri oficial e pela crítica. Faturou também os troféus de roteiro e ator. Ave Maria, Mãe dos Sertanejos, do pernambucano Camilo Cavalcante, ganhou o prêmio de direção e montagem. Ensaio de Cinema, registro entre o poético e o realista da dupla que prepara uma performance em sua casa, em Santa Tereza (RJ), foi o curta que encantou a todos, crítica e júri. Com justiça. Mas, da mesma forma, outras propostas originais, como A Amiga Americana, foram postas de lado, o que é pena.

Homenagem. A cerimônia de premiação foi simples e rápida. Contou ainda com a homenagem à atriz Patricia Pillar, que recebeu seu troféu das mãos do ator Salvatore Basile, italiano radicado na Colômbia que participou de filmes de Sergio Leone (Era uma Vez no Oeste) e Werner Herzog (Cobra Verde), entre muitos outros. Patricia, simpática e linda como sempre, ressaltou a importância de festivais ibero-americanos, que promovem integração entre povos de culturas irmãs, porém cinematograficamente desconectados por questões de mercado.

A noite de encerramento foi provavelmente a última realizada pelo festival no histórico Cine São Luiz. Um cinema bonito, grandioso, de outros tempos, mas ultrapassado do ponto de vista técnico. E, sobretudo, situado em local, a Praça do Ferreira, que a população de Fortaleza não considera seguro. Ano que vem, disse ao Estado o diretor do festival, Wolney Oliveira, o Cine Ceará muda-se para o não menos histórico Teatro José de Alencar. Um templo da música e da ópera que será adaptado a essa arte mais jovem, que é o cinema, a partir de 2011.

PRINCIPAIS VENCEDORES

FILME: O Último Verão de La Boyita

DIRETOR: Javier Rebollo (A Mulher Sem Piano)

FOTOGRAFIA: Santiago Racaj (A Mulher Sem Piano)

EDIÇÃO: Rosario Suárez e Andrés Tambornino (O Último Verão de La Boyita)

ROTEIRO: Lola Mayo e Javier Rebollo (A Mulher Sem Piano)

SOM: Lena Esquenazi (O Último Verão de La Boyita)

TRILHA ORIGINAL: Luiz Pretti e Uirá dos Reis (Estrada para Ythaka)

DIREÇÃO DE ARTE: Juan Carlos Acevedo, de Do Amor e Outros Demônios

ATOR: Damián Alcázar e Alfredo Catania (O Último Comandante)

ATRIZ: Miriel Cejas (Lisanka)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Memória Cubana, de Alice Andrade e Iván Napoles.

CURTA: Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro

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