Tevê disseca vida e obra de Nélson

Nélson Rodrigues foi repórter, dramaturgo, cronista, crítico, comentarista de futebol, trágico, ácido, pessimista e, acima de tudo, foi o Anjo Pornográfico. Todas essas nuances do escritor foram investigadas pelo diretor Marcus Vinícius Cézar, que, para traçar um panorama da vida e obra do dramaturgo, entrevistou quem mais entende de Nélson: seus filhos, amigos e estudiosos de sua obra. O resultado dessa pesquisa é o especial Retratos Brasileiros - Nélson Rodrigues, que o Canal Brasil exibe nesta quinta-feira, às 23h30. Será a primeira atração da homenagem que o canal presta a Nélson até fevereiro.Para reconstruir o cotidiano e a carreira de Nélson, Cézar contou com depoimentos do crítico de teatro Sábato Magaldi, do diretor teatral Luiz Arthur Nunes, do cineasta Neville de Almeida dos jornalistas Wilson Figueiredo e Zuenir Ventura, e dos filhos do dramaturgo Nélson e Jofre Rodrigues, que ajudaram a recompor o "homem Nélson".Também foi uma experiência nova para o diretor. "Eu conhecia pouco de sua obra e menos ainda de sua vida e fui me fascinando cada dia mais", conta Cézar. Nessa investigação, destacam-se alguns pontos importantes: as tragédias que marcaram sua vida, sua relação com o futebol e os ´altos e baixos´ de sua carreira.Em relação ao futebol, o trabalho do cronista que dizia não entender do esporte é analisado com bom humor pelo amigo Wilson Figueiredo. "Muitas vezes Nélson não assisitia ao jogo. Fixava-se em um jogador e criava seu personagem, sua história; nem sabia quando era gol", relembra.O extremo ceticismo a respeito da sociedade, pode ser explicado em parte pelas tragédias de seu cotidiano que se confundiam com sua obra. "Aos 14 anos, ele viu o irmão Roberto ser assassinado", diz Cézar. Aos 13, começou a trabalhar nos jornais sensacionalistas de seu pai, Mário Rodrigues: A Manhã e A Crítica. "Você imagina um garoto convivendo com cadáveres em necrotérios, assassinos, cobrindo pactos de morte, que naquela época eram muito comuns? Meu Deus. Como é que esse menino iria raciocinar sobre a vida?", questiona Jofre Rodrigues, filho do escritor.É essa trajétoria que permeia a obra do autor, ainda atual e contundente. Prova disso são as adaptações de seu trabalho. Sua primeira peça, A Mulher Sem Pecado, de 1941, está em cartaz no Rio de Janeiro, numa montagem de um dos entrevistados do especial, Luiz Arthur Nunes.A influência que Nélson exerceu sobre a obra de tantos diretores teatrais e cineastas também é comentada pelo cineasta Neville de Almeida. "Ele conta como foi adaptar os diálogos fortes, como é filmar a obra do dramaturgo", conta Cézar.São cenas dos mais de 20 longas e curtas baseados em suas peças, romances e crônicas que ilustram os depoimentos dos entrevistados. "Nada melhor para retratar a obra de Nélson do que esses trabalhos", diz Cézar.O resultado das adaptações de Neville de Almeida e de outros célebres diretores também pode ser conferido a partir de amanhã. Logo após Retratos Brasileiros vai ao ar o longa Boca de Ouro, que Nelson Pereira dos Santos filmou em 1962. Esse é o primeiro de uma série de filmes baseados na obra do anjo pornográfico que serão exibidos semanalmente até 22 de fevereiro. Na próxima semana é a vez de O Beijo. Nas seguintes, serão exibidos A Falecida, de 1965; Os Sete Gatinhos, de 1977; A Serpente, de 1980; O Beijo no Asfalto, de 1980; Engraçadinha, de 1981; Perdoa-me por Me Traíres, 1983; e Traição, de 1999.

Agencia Estado,

20 de dezembro de 2000 | 17h58

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