Teve a ousadia de criar uma geração literária

Editor, morto no fim de semana, deixa como legado a coragem de publicar obras de autores tidos como inviáveis

Claudio Willer, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2010 | 00h00

          Imperturbável. Massao Ohno ficou conhecido por alguns como "editor zen" ou "samurai".      

 

                            

Com Massao Ohno, cada livro tinha identidade própria. Edição era tradução visual. Por isso, denominarem-no "poeta dos livros", como o fez Álvaro Alves de Faria (em uma série de depoimentos em http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=23058 ). Podia ter-se estabelecido em alguma corporação editorial, mas escolheu as dificuldades da liberdade de criação.

Hilda Hilst e Roberto Piva agora chegam a um público mais amplo através da editora Globo - e as edições são impecáveis. Mas aquelas de Massao permanecem como preciosidades. Daí as relações recorrentes de autores com ele - aquela com Hilda Hilst foi exemplar: acabava voltando, escolhendo-o para obras como O Caderno Rosa de Lory Lamby, de 1989 e, em seguida, Cartas de Um Sedutor; ambas precedidas por A Obscena Senhora D, de 1982. Na foto dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles dedicada a Hilda, os dois juntos, emanam ternura.

Obras como essas também saíram por iniciativa de Massao porque nenhum outro editor se animara a publicá-las antes dele. Assim foi, também, com Paranoia, de Roberto Piva, de 1963 (o projeto original foi resgatado pela edição do Instituto Moreira Salles em 2000).

Samurai. Como ele apreciava correr riscos ao fazer livros inviáveis (e hoje consagrados)... Imperturbável, justificava chamarem-no de "editor zen" e "samurai". Mas não se fez especialista em obras "proibidas". Boa parte de suas publicações foi de autores em uma dicção tradicional; também algo de nossos construtivistas; e, representando a outra ponta, um livro de Augusto Boal. Amava a diversidade. E amava as mulheres: a coleção Novíssimos corresponde à maior presença de autoras na poesia brasileira, desde o começo com Lilian Pereira da Silva, Eunice Arruda, Renata Palottini, depois Hilda, Olga Savary em edições suntuosas, Dora Ferreira da Silva em sua importante estreia tardia.

E amava artistas plásticos, tornando-os parceiros: Wesley Duke Lee em Paranoia, Millôr Fernandes em O Caderno Rosa de Lory Lamby, Jaguar em Cartas de um Sedutor, Cyro del Nero e Manabu Mabe nos primeiros volumes da coleção Novíssimos de 1960. Além dos que começaram como seus assistentes, como Tide Hellmeister.

Ohno em 1964, veemente: "Willer, quero te publicar!" Seis meses depois, a sessão de autógrafos da minha estreia. Não sei quando nem como teria saído, se não fosse ele. Repetiria o "Willer, quero te publicar!" outras vezes. Este ano, a 27 de março, no evento em apoio a Roberto Piva: corroído pelo câncer, puxou-me para um canto e sussurrou que queria publicar-me mais uma vez.

"Não existe geração literária sem editor": citei essa frase de Octavio Paz no catálogo do Instituto Moreira Salles em homenagem a Massao. Ele fez uma geração literária, aquela dos Novíssimos de São Paulo, ao distribuir edições por assinatura, em remessas de dois livros por mês. Representou também um avanço em criação gráfica. Por isso, por um bom tempo, publicar poesia e recorrer a Massao Ohno foram sinônimos.

Há uma quantidade de bons poetas novos que circulam em blogs e páginas da net, apresentam-se em saraus e até publicam em edições patrocinadas ou subvencionadas. Falta um Massao Ohno para que essa produção ateste a renovação da poesia contemporânea brasileira.  

* Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor

QUEM FOI?   Massao Ohno

Editor

CV: Nascido em São Paulo, Massao Ohno (1936-2010) criou nos anos 50 uma editora que se tornaria célebre pelo apuro visual e pela atenção à poesia: em 1961, lançou a Antologia dos Novíssimos, marco da poesia brasileira, e revelou autores como Roberto Piva, de quem publicou Paranoia (1963), Cláudio Willer e Álvaro Alves de Faria.

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