Teu Jorge para sempre

Livro de cartas trocadas entre Jorge e Zélia fala de paixão e de Guerra Fria

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h09

A previdente Dona Angelina já ensinava: "Quem tem procura e acha; quem não tem procura e não acha". Italiana da região do Vêneto, ela imigrou para São Paulo com o marido no despertar do século 20. A filha Zélia Gattai (1916-2008) nunca esqueceria a lição materna, e também viraria uma "guardadora de coisas". Reuniu com zelo as cartas que o marido, Jorge Amado, lhe enviou nas viagens em que não pôde acompanhá-lo. Antes de morrer, entregou o arquivo à filha Paloma: "Faça com isso o que achar melhor". Já imaginava que dali surgiria um livro.

O lançamento, pela Companhia das Letras, de Toda a Saudade do Mundo - A Correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai - Do Exílio Europeu à Construção da Casa do Rio Vermelho (1948- 1967), não teria saído se a iniciativa dependesse apenas da caçula dos Amados. Foi o irmão João Jorge quem tomou para si a missão delicada de navegar pelo mar de sentimentos dos pais. Grande parte das cartas foi mandada quando Jorge saiu sozinho do Brasil rumo à Europa, em 1948, para escapar da pressão política.

"Fui ler quando mamãe morreu e não passei da primeira carta, fiquei muito emocionada", conta Paloma. "Foi o momento em que descobri que era órfã. Mamãe e papai eram tão unidos que só fui sentir 100% a morte dele (sete anos antes) com a dela. De alguma forma, ela o mantinha aqui.

O primogênito organizou cartas, postais e bilhetes e aproveitou para digitalizá-los. Na apresentação, ensina que o autor baiano gostava tanto de se corresponder que tinha agências de correio favoritas, como em Paris, onde mais tarde passaria a viver metade do ano.

Mas entre as cartas, escritas à máquina, não há as respostas da escritora para o marido. "Meu pai não tinha como guardar as cartas dela. Foi uma época difícil, tinha perdido o mandato de deputado e precisava se exilar na Europa", diz João, que tinha 1 ano e ficou com a mãe no Brasil. Paloma nasceria em Praga, em 1951.

O organizador incluiu na apresentação lembranças sobre as cartas que Zélia registrou em livros. "Enquanto aguardava a hora de deixar o Brasil, as cartas de Jorge me ajudaram a suportar a solidão. Às vezes, elas tardavam, e eu ia à rua ao encontro do carteiro", citou a memorialista em Senhora Dona do Baile (1984).

A militância política do escritor, filiado ao PCB e então considerado subversivo, está no livro com o mesmo peso dado às questões íntimas do casal. De Paris, Viena, Estocolmo e da Europa vermelha, Moscou, Berlim, Praga, Varsóvia, Jorge manda mensagens. Na Itália, em 48, participou da campanha eleitoral pós-resistência ao fascismo, a primeira com sufrágio universal no país.

Recebeu convites para assembleias na Iugoslávia, Albânia, Hungria, Bulgária. Participou da organização das primeiras edições do Congresso Mundial da Paz. "Um trabalho burocrático, necessário e difícil", dizia. Dividia com a companheira preocupações quanto aos rumos da Guerra Fria, o assassinato de Mahatma Gandhi, a Guerra da Coreia, o Brasil de Dutra e Getúlio.

Já numa das primeiras cartas (20/2/48), pouco depois da chegada à Europa, rogava: "Quero que digas ao pessoal que há grande interesse pelo Brasil e posso fazer muita coisa. Mas preciso urgente de material. Especialmente de jornais e de recortes. (...) É necessário que me mandes artigos do Velho (Luís Carlos Prestes) (...). Há uma fome por coisas daí. (...) Que o Velho ou outro escrevesse para Démocratie Nouvelle um artigo sobre a situação brasileira, a pressão imperialista e a resistência do povo".

Além disso, trabalhar em seus livros - em 51, publicou O Mundo da Paz, relatos de sua passagem pela União Soviética, que lhe renderia um processo no Brasil; em 54, o romance em três volumes Os Subterrâneos da Liberdade, ambientado no período do Estado Novo. A preocupação com o sustento da família no Brasil é constante. Jorge insiste para que a mulher vá atrás dos devedores, que não pagavam em dia por publicações e reimpressões. "Se te falte dinheiro aí, vende troços nossos (geladeira, rádio, etc.) ou manda me dizer que tomarei providências junto a amigos para que te forneçam", ele escreveu em 48, autor já de 14 livros, como Capitães de Areia e Mar Morto.

Na Europa, vivia austeramente. A despeito da popularidade de sua literatura, nunca foi homem de acumular patrimônio. Nos meses à espera de Zélia, pede que lhe leve do Brasil feijão, goiabada, farinha de mandioca. "A vida dele era muito apertada. Talvez tenha sido o primeiro escritor do Brasil a conseguir viver dos livros que publicava, mas vivia de forma modesta, precisava buscar cada centavo. Na Europa, recebia em moedas não conversíveis, então tinha que gastar lá mesmo", esclarece João.

A paixão pela mulher, com quem vivia desde 45, é ratificada carta a carta. Jorge chama Zélia de "Zé", "Zezinho", "meu amor, minha querida". "Creio que já nem sei funcionar, mas creio também que te virarei pelo avesso quando chegares", promete. Em várias, tentava também aplacar o ciúme de Zélia. Se ela demonstrava desconfiança em relação a alguma mulher, tratava de dizer na carta seguinte que a dita era feia e desinteressante. "Ele era muito galã. Se o ciúme era justificado, não sei, mas mamãe teve ciúme até depois de ele morto", lembra Paloma.

O livro vai até a construção da famosa casa do Rio Vermelho, em Salvador, possível quando da compra dos direitos de Gabriela, Cravo e Canela pela Metro-Goldwyn-Mayer, em 1961. A partir daí, o casal diminuiu o ritmo das viagens - e das cartas.

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