Testemunho de um tempo sem trégua

Cartas de Um Piloto de Caça, de Fernando Correa Rocha, revela o dia a dia de um brasileiro no campo de batalha

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h11

CARTAS DE UM

PILOTO DE CAÇA

Autor: Fernando Correa Rocha

Org.: Heloisa Rocha Pires

Editora: Ouro Sobre Azul

(256 págs., R$ 98)

ROBERTO GODOY

A

busca da aventura militar, sim, levou Fernando Corrêa da Costa, de 23 anos, ao cokpit de um caça americano P-47, poderosa plataforma voadora de metralhadoras, foguetes e bombas, em 1944, na frente italiana da 2.ª Guerra Mundial. Mas foi a sólida convicção democrática de Fernando, filho da burguesia rural paulista, que trouxe de volta o ex-estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco - colegas das extintas Panair e da Varig, as companhias comerciais brasileiras nas quais trabalhou, contam da sua intransigência contra conceitos totalitários. "Voar é liberdade", dizia.

Corrêa da Costa viveu até os 87 anos, completados em 2008. Era, então, consultor na construção de aeroportos. Parentes e amigos não sabiam da farta correspondência e, menos ainda, do pequeno diário que ele manteve concentradamente ao longo dos anos do conflito. A filha Heloisa, organizando documentos e fotos do pai, encontrou as missivas, suas notas pessoais, e decidiu reunir o material. O resultado é Cartas de Um Piloto de Caça, de rica e bem cuidada edição, com muitas imagens inéditas e uma elogiosa apresentação do crítico Antonio Candido, que conheceu o autor.

Fernando nasceu e morou em Araraquara, na Fazenda Santa Isabel, de seus pais, até a adolescência, quando se mudou para São Paulo, aluno do Colégio Arquidiocesano. Já frequentando a universidade, recebeu as primeiras instruções de pilotagem. Após se apresentar voluntariamente ao Ministério da Aeronáutica, seguiu para treinamento nos EUA e, de lá, seguiu para a Itália, como integrante do que viria a ser a Força Aérea Brasileira (FAB). Corrêa da Costa realizou 75 missões de ataque, entre as quais o bombardeio à ponte de Treviso, que interditou o deslocamento da tropa alemã na região nordeste da Itália.

Seu livro, de leitura agradável, revela um filho preocupado em tranquilizar os pais (aos quais pede, invariavelmente, "a bênção", a cada despedida) e um observador atento, mostrado nos registros mais duros do diário. O trabalho ganharia como documento de pesquisa se o conteúdo fosse organizado por temas, e não apenas pela ordem cronológica das cartas. Ainda assim, não perde a qualidade de testemunho de um período duro, único - e histórico.

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