Testemunhas de Strokes

Testemunhamos aquele momento em que uma banda se torna imensa, maior do que sua época e sua circunstância. Abrindo com NYC Cops, de seu primeiro álbum, num Playcenter lotado, os Strokes mostraram que sua noção de sujeira melódica do rock já lhes garantiu um lugar no Olimpo do rock. Foi a redenção da noite também, num festival que teve o pior line-up de suas edições recentes, com shows esquecíveis de White Lies e Interpol e um mediano do Beady Eye cansando o público antes da hora.

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2011 | 03h06

Aumenta que isso aí é rock'n'roll, foi o mote da noitada "strokesiana" que invadiu a madrugada do domingo, a partir da 1h36. Foi um show particular do guitarrista Nick Valensi, que entrou em cena de capuz, só o topete saindo para fora do treco, e esmerilhando com sua Les Paul. A guitarra era a lei. E Julian Casablancas, que já fez shows meio afônico recentemente, chegou com a voz tinindo, arrebentou nos vocais. De bombeta e sneakers de skatista, ele já não é mais aquele garoto franzino, está até bem roliço, e deve ter sido difícil entrar naquelas calças (demonstrava estar um tantinho "alto", mas na dosagem ideal).

"Ele tem verdadeiro orgulho brasileiro", disse Casablancas, apontando para o colega Fabrizio Moretti, baterista que nasceu no Rio de Janeiro, mas vive nos Estados Unidos desde criança - e foi fundador da banda. Moretti sorriu satisfeito. Reunidos, eles sintetizaram para os anos 2000 uma espécie de estética nova-iorquina por excelência no rock'n'roll, com a atitude blasé em cena e a alternância de ternura e fúria em seus riffs de guitarra, cuidadosamente embrulhados pelo outro guitarrista, o cool Albert Hammond Jr.

Parecia que todas as 20 mil pessoas ali tinham vindo para ver os Strokes, testemunhar sua graduação. O telão dava os nomes errados das músicas - provavelmente, mudaram a ordem -, mas o público nem piscava. "Jules, I need a hug" (Jules, preciso de um abraço), dizia um cartaz que uma garota mostrava lá no meio da plateia. Um menino andava para lá e para cá com uma máscara de V de Vingança, símbolo das novas rebeliões mundiais. Outra garota dançava no fosso de segurança em frente ao palco, de sainha e balanço iê-iê-iê, o que levou o Julian a saudar as "garotas bonitas" da audiência.

Depois de NYC Cops, veio Heart in a Cage e Machu Pichu, mas foi com Modern Age, também do primeiro disco, que a plateia veio abaixo. Foi assim o show todo, em 19 músicas: vinha uma canção nova apresentada com o desejo de que se tornasse eterna, mas a eternidade mesmo sobrevinha quando eles voltavam ao início de tudo, com Is this It, Someday, Last Nite, Take it or Leave it (a derradeira da noite), todos hits de seu primeiro álbum, Is this It, que já tem 10 anos e foi saudado na época como a "salvação do rock".

Essa terminologia bíblica, de "salvação", já não cabe mais, mas os Strokes acharam seu lugar privilegiado num tipo de continuum do rock, e manuseiam as melhores emoções de abandono existencial em canções como Reptilia. E escavam instintos primitivos, ilegais e selvagens, em nosso ânimo, como a adrenalina de um rachão em carros velhos, em outras faixas, como NYC Cops.

Do mais novo álbum, Angles (2011), tocaram apenas quatro músicas (e foi muito): Machu Pichu, Gratisfaction, You're So Right e Under Cover of Darkness. Algumas canções, como Yolo, têm menos pegada em disco, mas até que funcionaram bem no Playcenter. Bom, os Strokes estavam numa noite tão inspirada que fariam o público levitar até se tocassem Leãozinho.

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