Testemunha ocular de uma época de conflitos

A guerra do futuro próximo não terá aviões de caça tripulados. E a razão dos conflitos do século 21 não é mais o controle do solo - o que interessa agora é o subsolo e o substrato, as fontes de energia, a água e, claro, o personagem clássico no cenário dos interesses, o campo produtor de alimentos. A batalha é cibernética e o xeque mate pode vir por meio do constrangimento eletrônico da infraestrutura de um país inteiro.

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

Nesse cenário, a leitura de O Primeiro e o Último, memórias de um ás da Luftwaffe, a aviação da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, ganha importância. Trata-se do depoimento de Adolf Galland. O livro foi lançado pela primeira vez na Alemanha em 1953. Galland, nessa época, morava na Argentina. Era instrutor de operações aéreas de ataque e interceptação. O autor morreu em 1996, em Bonn, aos 84 anos.

É a visão serena e bem escrita de um guerreiro de seu tempo. Sem ilusões: o piloto Galland atuou sob ordens de três ditadores, Adolf Hitler, Francisco Franco e Juan Perón. Cumpriu 705 missões de combate e derrubou 104 aviões inimigos. Sentou-se à mesa com monstros do porte de Herman Goering e Heinrich Himmler. E tudo o que queria era voar, revela, com singeleza.

A história de Galland começa a ser contada a partir de Buenos Aires, onde desembarcou em 1948. A rigor, todavia, os prodígios vividos pelo piloto tem início em 1929, ano chave para o mundo - crise econômica, mudanças na geografia política, adoção de novos conceitos estratégicos e também do seu primeiro voo a bordo de um planador. Na mesma ocasião, tem acesso à escola de aviação de Brünswick, uma das formas encontradas pelo governo germânico para investir na formação da aviação militar que o Tratado de Versalhes proibia.

No anos 30, o chanceler Hitler manda para a Espanha a Legião Condor, em apoio a Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola. Galland cumpriu 300 missões, quase todas no comando de biplanos Heinkel. Voltou à Alemanha como líder de esquadrão.

O livro é um relato minucioso e quente de bombardeios, ataques , ansiedade de combate e rotinas militares. Mas Galland não ignora episódios políticos dos quais foi testemunha ou protagonista. Merece destaque uma reunião com Hitler e o ministro dos armamentos do Reich, Albert Speer. O conflito está próximo do fim. A capacidade industrial, de transportes e energética da Alemanha entrou em colapso. Ambos se apresentam diante do Führer para alertá-lo a respeito do equívoco de uma ordem que determina o deslocamento da força de aviões de caça para frentes distantes. Hitler, relata Galland, "está agitado, afetado física e psicologicamente". Speer apresenta um quadro real da situação. O ditador perde o controle, interrompe a exposição. Abruptamente dispensa os interlocutores. A ausência das aeronaves seria determinante na derrota.

Galland voou os primeiros caças de propulsão à jato da história, os Me-262. O programa de desenvolvimento do modelo sofreu os piores efeitos da centralização excessiva na tomada das decisões do alto comando da Luftwaffe. Hitler queria o Me-262 como bombardeiro leve. Herman Goering defendia um tipo multifuncional. Os projetistas do fabricante pensaram em um interceptador puro capaz de atingir 950 km/hora. O Estado Maior pediu uma versão de reconhecimento a grande altitude. Em 1944 o total de variantes chegava a 25. O resultado final penalizou a autonomia, limitada a 1030 quilômetros, e dificultou o que Galland considerava "uma pilotagem soberba, asas de ferro para o homem", impondo, além dos quatro canhões de 30mm previstos inicialmente para a tarefa única de interceptação, duas bombas de 250 quilos, mais 24 foguetes ar-terra de 55 mm. No arranjo original, os jatos, dos quais foram fabricados 1.430 unidades, teriam tido um efeito arrasador. Não deu tempo. Quando foram reconhecidos como elementos diferenciais a guerra estava a 90 dias do final.

A melhor imagem da derrocada talvez seja a cena vista por Galland, depois da capitulação, em 3 de maio de 1945: ".... todos os aviões da Unidade de Caça 44 estavam sem camuflagem alguma na base aérea de Salzburg, sobre os quais circulavam os caças americanos. Esses aviadores, não utilizaram suas armas de bordo nem lançaram bombas, pois evidentemente eles mesmos esperavam poder pilotar em pouco tempo aqueles lendários caças a jato alemães..."

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