WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Testemunha-chave

Podem quebrar meus sigilos telefônico e bancário, não tenho nada a esconder

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 03h00

Senhoras e senhores, excelentíssimo relator, membros da mesa e dessa comissão. Mesmo amparado por medida cautelar de habeas corpus, que me garante o direito ao silêncio, ou seja, não responder a qualquer pergunta que possa me incriminar, esclareço os fatos. 

Nos termos do artigo 203 do Código Penal, direi toda a verdade. Vim para ser inquirido com respeito e humildade. Podem quebrar meus sigilos telefônico e bancário, não tenho nada a esconder. 

Inicio minhas considerações para dizer que quem está aqui sentado hoje não é uma “coisa-ruim”, de como me chamam pejorativamente. Alguém já me viu nos milhares anos da minha vida bem vivida reclamar de tanto trabalhar? Já viram eu me queixar de burnout? 

Estou em todos os templos, chacoalhando pessoas, emitindo voz grossa, expelindo frases desconexas, rolando pelo palco. Cansa. Quando ligam as câmeras, apareço, sou xingado, maltratado, cospem em mim, e nunca cobrei direito de imagem. 

Os senhores sabem, até porque muitos daqui são pastores, que nunca neguei um chamado, faço plantão noite, dia, feriados. Coisa-ruim é aquele que utiliza dos meus serviços sem reconhecer o meu sacrifício. Diferentemente do nosso Presidente da República, que me procurou na campanha eleitoral.

Minha história, todos sabem. Tenho reputação internacional. Meus trabalhos foram retratados por diversos pintores, já fui representado por Jack Nicholson, A Bruxa de Eastwick, por Al Pacino, Advogado do Diabo, e por Robert de Niro, Angel Heart, que o distribuidor brasileiro deu um tremendo spoiler chamando-o de Coração Satânico.

Nele, o detetive particular era Mickey Rourke, que estava se firmando como galã, antes de pirar, num pacto malfeito comigo, e arrebentar a cara lutando box. A trama é mediana, escrita com linhas bem tortas. Louis Cyphre o contratou para desvendar o desaparecimento de um cantor. A investigação percorre meu tempero favorito.

Descobre-se que Louis Cyphre era, adivinha, Lú-ci-fer, que cobrava uma dívida. 



Sou cinéfilo, vossas senhorias, apesar de ser a rede social a minha invenção mais popular, depois da britadeira. Em Advogado do Diabo, Keanu Reeves, antes de falar sozinho em pontos de ônibus, faz um advogado de uma cidade da Flórida desafiado a inocentar um professor pedófilo, para continuar a série invicta de 30 causas ganhas.

Mesmo desconfiado do cliente, o defende. Por quê? Meu pecado favorito: vaidade. 

Advocacia não é invenção minha, apesar de muitos acharem o contrário. Sua ambição e talento em dobrar um júri chama a atenção da maior firma de advocacia, cujos clientes eram as pessoas mais infames. O dono, Al Pacino, um workaholic. Como me representou bem...

Descobre-se que ele, eu, é pai do novato. Sua vida foi toda manipulada. E que, se procriar com sua meia-irmã, darão à luz o anticristo. Na derradeira cena, o pai, eu, Lúcifer, tinhoso, capiroto, belzebu, capeta, fala para o filho: 

“Vou te dar a minha opinião sobre Deus. Ele gosta de observar, é um gozador. Ele dá instintos aos homens. Depois de lhe dar esse extraordinário dom, o que Ele faz depois? Eu juro, para Sua própria diversão, para Sua própria comédia cósmica privada, cria regras contraditórias”. 

Continua, num debate teológico sincero e convincente: “É a maior piada de todas. Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula. E enquanto você fica em dúvida entre uma coisa e outra, ele rola de tanto rir. É um sacana, um sádico! É um proprietário ausente. Adorar isso? Nunca!”.

Sei de cor essa fala... A resposta do filho é uma pergunta tola: “É melhor reinar no inferno que servir ao Céu?” Claro que é! Vejam! Eu aconteci! Nicholson, De Niro, Pacino, Trump! Sou uma estrela. Fiz amor com Mia Farrow em O Bebê de Rosemary. Fiz Linda Blair girar a cabeça e vomitar como um hidrante em O Exorcista

Estou presente na literatura de Dante, Goethe, Machado de Assis, Guimarães Rosa. O encardido, príncipe das trevas, satanás, senhor das moscas, tranca-ruas? Estou na Amazônia liberando madeira apreendida. Estou na Bíblia em pessoa!

Recebi do senhor Presidente a missão de conduzir os trabalhos do governo assim que foi empossado. Fui convocado para o dever patriótico de exaltar o ódio. Está consolidado. Há ódio em toda parte: dividi famílias, rompi casamentos, desfiz amizades. Rasguei multas do Ibama, liberei crianças de cadeirinhas, encomendei leite condensado. 

Deus fez o quê? Mandou uma chaga, mais uma, para nos punir. O que fiz? Mostrei o caminho que um mito deve seguir. Aconselhei a desacreditá-la, chamar de chagazinha, criticar a ciência, e a boiada pôde passar, para explorar nossas riquezas, a natureza que Ele criou e não queria que a usufruíssemos.

Tranca-ruas? Sugeri liberar armar a população! Mandei ironizar o uso de máscaras, aglomerar, denegrir a imprensa, tossir à vontade. Deus achou que vocês iam aprender com sua chagazinha... Meu pupilo foi além, brilhante: eliminou o horário de verão e duvidou da eleição que ganhou!

Com toda a humildade, presto depoimento a essa comissão. Se Vossas Excelências me perguntarem como resumo minha passagem por esse governo, eu digo: missão cumprida!


É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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