Tesouros expostos

Fundação Biblioteca Nacional faz 200 anos com mostra de acervo e raridades

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2010 | 00h00

Poucos metros separam um raríssimo exemplar da chamada Bíblia de Mogúncia (1462), impressa sobre pergaminho por ex-sócios de Gutenberg, uma primeira edição de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, e um manuscrito da ópera O Guarani (1871), de Carlos Gomes. Essas preciosidades históricas são apenas três dentre os mais de 9 milhões de itens reunidos ao longo de dois séculos pela Fundação Biblioteca Nacional e podem ser vistas na exposição Biblioteca Nacional 200 Anos - Uma Defesa do Infinito, na sede da instituição, na Rua México, s/n.º, no centro do Rio, com entrada franca.

Com um acervo desenvolvido a partir da coleção Real Biblioteca, que d. João VI trouxe consigo ao desembarcar em Salvador em 1808 - e pela qual o Brasil pagou, "e não pouco", como destaca Muniz Sodré, presidente da Fundação Biblioteca Nacional -, a FBN é hoje a oitava instituição do gênero no mundo em quantidade de livros, mapas e outros documentos. Duzentas dessas peças foram selecionadas pelo curador Marco Lucchesi para a mostra, que fica aberta para visitação de amanhã até 25 de fevereiro.

"Foi uma das antologias mais difíceis que me coube realizar", diz Lucchesi, que dedicou nove meses de visitas às divisões da biblioteca, numa "verdadeira força-tarefa", com vários setores da instituição. "O trabalho de curadoria buscou abranger expectativas do que o público e os pesquisadores esperam ver em geral e, ao mesmo tempo, realizar um trabalho de arqueologia profunda, trazendo novidades."

Obras e autores. O resultado pode ser visto dividido em três seções principais. A primeira delas, A Construção do Gabinete Ocidental, conta um pouco da história da biblioteca, "peregrina", como destaca Lucchesi, já que passou por outros endereços, como a Rua do Carmo e a Rua do Passeio, antes de se instalar no atual prédio, em 1910. Dessa "pré-história" da instituição, aparecem documentos como uma listagem de naus e pessoas que saíram de Portugal a 29 de novembro de 1907 rumo ao Brasil, na companhia de d. João VI, assim como uma gravura do embarque no além-mar, de autoria de Francesco Bartolozzi. Do material que fazia parte do acervo da Real Biblioteca portuguesa, há curiosidades como a primeira edição de Os Lusíadas e um enorme volume do Le Grand Theatre de l"Univers (1741), no qual se destaca uma tábua cronológica de todos os príncipes da Europa desde o nascimento de Cristo.

Na segunda seção da exposição, chamada Do Autor Invisível à Máquina do Universo, estão algumas das maiores riquezas do acervo, como a Bíblia de Mogúncia. O "autor invisível" aparece, por exemplo, na mais antiga obra da Biblioteca Nacional, uma compilação de evangelhos em grego, manuscrita sobre pergaminho, datada do século 11. Daí para a frente começam a aparecer itens nacionais, como a arte de Santa Rosa para a capa do livro Sagarana, de Guimarães Rosa, e a edição original de A Menina do Narizinho Arrebitado (1920), primeiro título infantil escrito por Monteiro Lobato e cuja história, anos mais tarde, abriria o clássico Reinações de Narizinho (1931).

A terceira seção, Como a Pintura, A Poesia, inclui itens que esclarecem que o acervo da Biblioteca Nacional vai além de documentos em papel, como muitos podem pensar. São expostos ali, entre outras coisas, o arcabouço de violino usado para estudo pelo maestro César Guerra Peixe, e o disco que registra a gravação de Pelo Telefone, considerado o primeiro samba nacional.

Fazem parte ainda dessa seção gravuras de artistas como Francisco Goya e Rembrandt, além de charges nacionais, assinadas por Lan, Nássara e outros. "A ideia principal é a de ter o leitor como centro e o livro como instrumento. Nada de apresentar a biblioteca enquanto "bibliópolis" faraônica, imóvel, silente, passiva", descreve Lucchesi, conhecedor do acervo da FBN desde os 18 anos e cujo empenho na investigação do material lhe inspirou o romance O Dom do Crime, a ser lançado este mês.

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