Tesouros do Oriente

Thereza Collor expõe sua coleção de joias raras de desertos do mundo

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h13

Quem visitar a exposição Joias do Deserto, em cartaz na Galeria de Arte do Sesi, no Centro Cultural Fiesp, pode achar que Thereza Collor tem o hobby de colecionar joias garimpadas nas dezenas de viagens que já fez pelo mundo. Mas quem tivesse a chance de encontrar por acaso a idealizadora da mostra pelos corredores do evento, comprovaria que ela não tem hobby, mas paixão por não só colecionar, como garimpar, pesquisar, estudar, limpar, polir e explicar com riqueza de detalhes cada uma das duas mil peças que compõem uma das três maiores coleções de joias criadas por povos que vivem ou viveram nos maiores desertos do globo.

Em um 'dia normal' de funcionamento da galeria, enquanto Thereza percorria a exposição com a reportagem do Estado, era impossível não parar a conversa de tempos em tempo para ouvir algum visitante perguntar a ela sobre alguma peça, indumentária ou sobre como a coleção nasceu. "Começou por acaso, na minha primeira visita ao Oriente Médio. Até o Irã eu conheci. Tinha só 14 anos e comprei uma pulseira para mim. Adoro usar joias, bijoux e sempre procuro algo durante as minhas viagens. Com o tempo, comecei a adquirir objetos mais completos e percebi que estava formando uma coleção", contava a colecionadora ao mesmo tempo em que reparava que uma peça podia estar mais para a direita, que a outra poderia estar mais iluminada, que "se a gente olhar bem, pode ver o símbolo do sultão cravado na parte de dentro da pulseira".

É esta paixão e dedicação pela coleção que formou ao longo de décadas de peregrinação e que ganhou reforço com a doação de Eugenia Halbreich, sogra de Thereza. Como boa arqueóloga afetiva, Thereza, que é formada em história, garimpou as peças com colecionadores, comerciantes e até moradores locais de cada uma das cidades e vilas que percorreu ao longo de suas viagens pelo deserto do Saara (compreendendo Marrocos, Argélia, Mali, Níger, Tunísia, Líbia e Egito até o Sinai, chegando à Palestina); desertos da Ásia Central (Usbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Casaquistão (passando pelo Irã e Afeganistão); deserto de Thar (Índia - Rajastão e Guzarate - e Paquistão) e deserto do Himalaia (Tibete) e Ladakh (região dividida entre a Índia, Paquistão e China). "O que mais gosto é que não são joias de museu. São peças cheias de história, energia, camadas. Se você olhar com atenção, verá que muitas estão gastas pelo uso, que até se moldaram ao corpo de seus donos. É apaixonante pensar na vida que teve cada uma dessas peças."

De fato. Abrangente, rica em detalhes e organizada de acordo com cada região percorrida, a exposição transporta o visitante para o universo de cada peça exposta. O percurso começa com os adornos de cabeça do deserto da Ásia Central e segue pelos outros cinco núcleos geográficos. Cada um deles conta, por meio dos detalhes de seus brincos, colares, adornos, acessórios, braceletes, tornozeleiras, vestes e até relicários e bolsas porta-reza, um pouco da cultura, dos costumes e valores dos povos a que pertenceram.

É fascinante descobrir como uma simples pulseira cheia de pontas e espinhos pode, ao mesmo tempo, espantar maus espíritos, trazer sorte e servir de arma de defesa ou como uma tornozeleira por dizer muito sobre uma mulher. "Este colar era contraindicado para jovens judias porque tem a meia lua, que é o símbolo do Islã. Ainda que os ourives judeus fabricassem joias tanto para muçulmanos quanto para judeus, havia uma separação clara. Já estas tornozeleiras eram usadas pelas mulheres casadas para simbolizar o matrimônio", explicava uma fascinante e fascinada Thereza enquanto percorria as alas da exposição.

Esta é a primeira vez que sua coleção particular é revelada ao público. A mostra deve viajar para outras capitais do País ainda este ano. "É um sonho que realizo. Mantenho tudo em casa, na de Maceió e na de São Paulo. Guardo em armário, limpo de tempos em tempos. Conheço os detalhes de cada uma. Queria que, além das fotos que estão aqui expostas, pudessem ganhar um livro. É importante documentar esta arte e as mudanças por que passam estes povos. A globalização modificou muitos hábitos e a maioria não usa mais os adornos. Muita coisa está literalmente virando peça de museu."

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