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Tesouro à flor da terra

Por que cavar em busca de um tesouro na Casa Mariana, se ela mesma já estava na mão?

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2019 | 03h00

Quem passa pela rua das Lajes, em Ouro Preto, corre o risco de não reparar na casa, aparentemente igual a tantas na antiga capital de Minas. Será uma pena: a fachada, sem nada de muito especial, esconde uma preciosidade. Para começar, é uma das moradias mais antigas da cidade, erguida há 300 anos, pouco antes que a largada do Ciclo do Ouro fizesse de Vila Rica uma Serra Pelada avant la lettre, fervedouro de aventureiros em busca de fortuna e de poetas a tramar revoluções contra a Coroa Portuguesa. Além disso, a casa se debruça sobre um vale salpicado de um deslumbrante casario, dando a quem contempla a paisagem a impressão de ter ante seus olhos uma gigantesca tela de Guignard. Para completar, ali viveu Elizabeth Bishop, uma das maiores escritoras americanas do século 20, que a restaurou e lhe deu nome, Casa Mariana, homenagem a outra grande poeta, sua amiga e mestra Marianne Moore.

Elizabeth, que um fulminante amor brasileiro prendera ao Rio e à serra de Petrópolis no início dos anos 50, foi passar uns dias em Ouro Preto em 1965 e se encantou pela casa. Vim conhecer um lugar, contou em carta, e comprei uma casa. O telhado lhe pareceu o mais belo da cidade - “uma lagosta deitada de bruços”, descreveu para um amigo. Falou também do “enorme jardim murado”, das paredes que raramente fazem ângulos retos, dos “porões misteriosos” onde outrora se lavava ouro, da lenda em torno de um tesouro oculto. Adorou o sistema - pau a pique - utilizado na construção da casa, posto a nu ao despencar da parede da sala um retalho de reboco. Elizabeth não quis remendo, preferiu que se cobrisse a falha com um vidro emoldurado, deixando ver as entranhas e o sistema construtivo da casa. A madeira e a taquara são atadas não com cipó, mas com tiras de couro - sinal inequívoco de que a construção remonta ao tempo em que a atividade dominante na região era a pecuária, anterior, portanto, ao Ciclo do Ouro. Uma casa do “ciclo do couro”, se você me permite, erguida entre 1698 e 1711. 

Os trabalhos da reforma e restauração arrastaram-se por anos, consumindo boa parte das economias e sobretudo da paciência de Elizabeth Bishop, exasperada com o hábito que têm nossos pedreiros e marceneiros de se volatilizar em meio à empreitada. Muito valiosa lhe foi nessa maratona a ajuda de Lili Correia de Araújo, amiga dinamarquesa que se estabelecera em Ouro Preto após a morte do marido, o pintor brasileiro Pedro Correia de Araújo.

Entre 1969 e 1974, Elizabeth viveu intermitentemente na Casa Mariana, em companhia dos gatos Tobias e Suzuki e de uma companheira americana. Depois disso, a casa teve uma sucessão de inquilinos, alguns dos quais, menos cuidadosos, dizimaram a louça dinamarquesa que a escritora trouxera da América. Dois deles, o pintor inglês Hugh Dunford Wood e sua mulher, Emma, artista do ramo da prataria, não só cuidaram bem da casa como ali tiveram um filho, nascido no quarto da escritora em 1977. O casal deixou gravado a diamante, numa das vidraças, um registro jubiloso do acontecimento. (Dezoito anos mais tarde, em companhia do pai, o garoto Jesse Wood - hoje, prestigiado chef de cozinha em Londres - se abalou da Inglaterra para conhecer a cidade natal, e dormiu no quarto em que veio ao mundo.) Após a morte da escritora, a casa foi comprada por sua amiga Linda Nemer, que concluiu a restauração e introduziu novos confortos - além de dedicar-se ao plantio dos jardins, que se espalham hoje por vários patamares floridos. 

De Elizabeth, resta um pouco na Casa Mariana, onde tive o privilégio de pousar algumas inesquecíveis vezes. Um fogão esmaltado e uma banheira trazidos da América. Um malão escuro, desses que se usavam em viagens de navio. Uma balança de cozinha na qual a escritora pesava como palavras de um poema os ingredientes de seus quitutes. Ficaram também sua cama de cedro com cabeceira cabeça-de-cisne, do século 19, e uma graciosa mesa com pés de lira, brasileiríssimas, ambas - como os armários envidraçados que Elizabeth comprou na liquidação de uma farmácia. Um deles impera ainda na sala de jantar, em frente a uma bela mesa, também de cedro, do século 18. 

E o tesouro oculto de que acima se falou? A crer no que deixou escrito um de seus donos, certo Manoel Braga, em algum lugar da casa estariam enterradas 18 mil moedas e 18 arrobas de ouro. Muitos dos que lá viveram bem que pelejaram para desentranhá-las e, se algum teve êxito, teve também a mineira sabedoria de moitar. A própria Elizabeth, parece, se animou com a perspectiva da legendária dinheirama. 

Quanto a Linda Nemer, falecida em janeiro de 2016, aos 84 anos, é sabido que só pegava em ferramentas para cuidar de seus jardins, nos quais cultivava três dezenas de espécies de flores. Terá sido ela, quem sabe, o único dos muitos habitantes da casa que não cavoucou atrás de tesouro escondido. Um dia, ela me levou ao porão da casa, e, enquanto caminhávamos naquele acidentado chão de terra, sua sandália topou numa saliência, fazendo saltar, recoberta de azinhavre e imemorial sujeira, uma moeda de cobre sem maior valor, cunhada em 1824. Linda achou graça no meu deslumbramento de garimpeiro involuntário, e providenciou uma xícara com limão e sal, mistura na qual mergulhamos a moeda, fazendo-a recuperar o antigo brilho e cor, além de reavivar cada cicatriz de um dinheiro que, de mão em mão, muito deve ter errado nos anos que se seguiram à nossa Independência. Presente seu, hoje me pertence. Linda Nemer não se impressionou com o achado, e talvez não se impressionasse se a moeda fosse de metal mais nobre do que o cobre. Pois para ela o maior tesouro, a Casa Mariana, já estava na mão. 

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