Terrorismo é mais que bomba

Habitué de Cannes, o próprio Olivier Assayas reclamou por ter sido selecionado fora da competição. Houve uma polêmica, aqui, sobre Carlos. O filme sobre o famoso terrorista foi produzido para a TV. Tem 5h30 de duração e se divide em três capítulos que começaram a ser exibidos na quarta, simultaneamente com a apresentação em Cannes. Num festival que tem discutido o terrorismo de Estado (Fair Game e Hors La Loi), Carlos é fundamental. E Olivier, numa entrevista realizada ontem no terraço do Grand Hotel, disse que não o teria feito diferente, se fosse para cinema.

, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Por que Carlos?

Por que não? Como qualquer outro leitor de jornais, eu via seu nome aflorar, de tempos em tempos. E cada vez ele era diferente, o que alimentou uma mitologia. Por meio de Carlos pode-se falar da geopolítica dos anos 1970, e este foi um mundo que conheci bem, o dos exilados latinos na França. Não poderia fazer um filme sobre Osama Bin Laden porque ele pertence a outro universo, outra cultura. Os cineastas árabes, se é que há cinema árabe, que façam o filme. Em Carlos, me interessava o personagem, o mitômano e a complexidade do mundo em que viveu.

Por que não quis julgá-lo?

Não era minha função. O roteiro enumera certo números de ações que celebrizaram Carlos, conta antecedentes e consequências desses momentos particulares. Foi feita uma pesquisa detalhada e misturo fatos de conhecimento público com cenas privadas, e imaginadas, porque se trata de uma ficção. Nas cenas de atentados, uso material das vítimas. Não tomar partido não significa que eu não deva mostrar as consequências terríveis dos atos de Carlos.

Terrorismo é tema recorrente no pós-11 de Setembro, aqui mesmo neste festival. Por que falar do terrorismo no passado?

Minha perspectiva é atual, mas a vantagem de colocar a ação no passado é que posso formular uma pergunta e apresentar a resposta. No caso do terrorismo atual, não temos respostas. Se o espectador for atento, verá que a grande discussão embutida em Carlos é sobre o terrorismo de Estado. O maluco individualista, que quer explodir não importa o quê, é puro folclore. Para entender o terrorismo atual, é preciso se ligar na geopolítica. O resto é inocência, ou pior, manipulação.

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