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Terror em casa

Instigação à violência produz vítimas quando radicais realizam fantasias de vingança

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2018 | 02h00

O que têm em comum estes dois homens? Um é autor do maior ataque à comunidade judaica nos Estados Unidos e matou 11 pessoas numa sinagoga. O outro tentou, enviando bombas caseiras, assassinar dois ex-presidentes, uma primeira dama, uma ex-secretária de Estado e ex-primeira dama, um ex-vice-presidente, duas deputadas, o ex-diretor da CIA, o ex-diretor de Inteligência Nacional e um ator.

Ambos são americanos, viviam no submundo do ódio digital, mas sem se esconder. Não disfarçavam seu desejo de matar. Cesar Sayoc fabricou bombas na própria van onde morava e que era coberta de homenagens ao atual presidente, além de imagens de seus inimigos, entre jornalistas e um cineasta. Sayoc fazia biscates e circulou com a van durante mais de um ano exibindo o rosto de Hillary Clinton coberto com um alvo de tiro. Robert Bowers, o nacionalista branco e autor do massacre na sinagoga, ameaçava abertamente grupos judaicos online. Escolheu a congregação por seu trabalho de caridade com refugiados.

Não é difícil imaginar que, se um dos dois homens se chamasse Muhammad e frequentasse uma mesquita, já estaria no radar da inteligência contraterrorista. Assim como não haveria a versão conhecida do terror do Estado Islâmico sem ferramentas digitais, o terrorismo doméstico nos Estados Unidos foi imensamente potencializado online. 

As contas de rede social de Sayoc e Bowers foram canceladas, mas só depois do massacre consumado e do massacre frustrado. Como venho repetindo aqui, não dá para aplicar a camisa de força “fake news” para toda a mídia e a própria palavra mídia é genérica demais para abarcar como se consome informação.

A professora Kate Starbird, da Washington University, vem estudando o ecossistema de mídia alternativa que atrai figuras como Sayoc e Bowers. Não é um submundo exclusivo de direita, é alimentado por conspirações e tem se beneficiado do despreparo da mídia mainstream para se distinguir dele. Em seus estudos, Starbird nota como a máquina de desinformação operada pela Rússia se serve deste mesmo mundo de realidade alternativa para amplificar as mensagens e aumentar a polarização. Mas, ela diz, o que mais preocupa foi detectar ideias antes consideradas marginais entrando no discurso de elites políticas pela pura expediência de adquirir ou manter o poder.

Cada recipiente das bombas toscas de Cesar Sayoc foi atacado pelo presidente nos comícios e em tuítes. Robert Bowers estava convencido de que o espantalho judeu favorito da direita conspiratória, o bilionário liberal George Soros, financia a caravana de refugiados que percorre o México, algo que o presidente mencionou em comício, fazendo um gesto que sugere distribuição de dinheiro. A palavra ‘globalista’ passou a ser eufemismo para judeu, aquele que despreza fronteiras nacionais. E a palavra ‘nacionalista’ se tornou semanticamente acorrentada ao nacionalismo branco, uma ideologia cujo inimigo número um é o judeu, não o negro.

Em comício, na semana passada, o presidente reconheceu que tinha sido desaconselhado a usar os termos. Mesmo assim, se proclamou um nacionalista, para urros da plateia. Depois da prisão de Sayoc, culpou a imprensa pela linguagem polarizadora. Depois do massacre na sinagoga, sem demonstrar qualquer empatia, culpou a falta de guardas armados. O atirador portava uma arma semiautomática usada por exércitos e conseguiu ferir dois membros da ultra-armada SWAT.

Instigação à violência produz vítimas reais quando radicais se sentem fortalecidos para atuar suas fantasias de vingança. Vivemos um momento em que líderes improvisados parecem esquecer que governam toda a população, não apenas os que votam neles. Palavras de presidentes têm peso.

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