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Lúcia Guimarães
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Território desconhecido

Uma passagem pelo Brasil me esclareceu uma persistente sensação de dissonância cognitiva. Desde o dia 9 de novembro, cada vez que escrevo, neste espaço ou na rede social, sobre a gravidade do resultado da eleição norte-americana, aparecem, não apenas os inevitáveis trumpanaros, mas também internautas usando equivalência entre o vencedor e a derrotada como guia e me cobrando melhor apreciação pelo “sistema.” O sistema funcionou, garantem. Sou censurada por não compreender as sagradas regras do jogo do país com a constituição mais duradoura do mundo.

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2016 | 02h00

Chega de mimimi, reclamam, como se minha preferência e a de 65 milhões de eleitores por Hillary (uma vantagem, enquanto escrevo, de 2.5 milhões no voto popular) fosse um capricho ideológico. Uma eleição é uma coisa, uma eleição com este resultado é outra coisa. Ninguém sugeriu um golpe de estado de república de banana, mas há, sim, um golpe em movimento contra aspectos fundamentais desta democracia e reduzir o alarme a mimimi (que neologismo besta) é voltar à década de 1930. O que há de opaco nos acontecimentos que descrevo?, andava me perguntando, até observar de Pindorama a cobertura sobre o Nero da 5ª Avenida.

A mídia norte-americana ainda está completamente despreparada para enfrentar um presidente eleito que não respeita normas tradicionais de civilidade, o decoro do cargo, mente com regularidade em comícios ou na rede social, faz propostas inconstitucionais e ameaça a imprensa. Não é de surpreender que jornalistas soterrados sob o bombardeio digital, no que sobrou da imprensa de outros países, estejam mais perplexos ainda.

Uma rotina da reportagem é reproduzir declarações de autoridades. Mas Trump é aquela outra coisa. Reproduzir sua promessa de se afastar de suas empresas, em dezembro, sem vendê-las, é como comunicar aos leitores que Papai Noel vai chegar na mesma época com 12 milhões de empregos novinhos para todos os brasileiros que precisarem de um. Vamos acabar com a afetação pernóstica da “pós-verdade”. Uma mentira é uma mentira é uma mentira.

As empresas de jornalismo dos EUA se contorcem como pretzels (aquela rosca sem gosto vendida em carrocinhas em Nova York) para não usar a palavra mentira em manchetes sobre o eleito. A agência Associated Press é uma organização que está evitando a palavra, “confiando na inteligência do eleitor” e torcendo para que, ao contrapor declarações de Trump com fatos, o bom senso prevalecerá. Estamos falando do primeiro candidato a líder do superpoder que havia sobrado da Guerra Fria aplaudindo quando seus eleitores vaiavam e cuspiam em jornalistas. E ele voltou a jogar a massa contra a imprensa, logo depois de eleito. Está em assembleia anarco-fascista permanente. 

Outro exemplo foi a conversa com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, que violou um delicado equilíbrio de décadas de geopolítica no Leste da Ásia, uma afronta à China. Depois, ficamos sabendo que Trump tinha planos de empreendimentos imobiliários com seu nome em Taiwan. Já vimos guerras começarem por pequenos incidentes, mas branding, até hoje, não foi um deles.

O governo chinês reagiu com prudência, o que não é motivo para alívio. Sheng Dingli, membro da elite acadêmica em Xangai disse ao New York Times que não vê problema em Trump, no momento, “um cidadão privado”, conversar com Taiwan. Mas, se ele continuar a conversa depois da posse, “a China deve cortar relações diplomáticas com os EUA,” fechar a embaixada, trazer diplomatas de volta. E concluiu: os EUA vão pedir a Taiwan para lidar com a Coreia do Norte e o Irã e co-operar sobre a mudança de clima?

Enquanto Roma arde, Nero vai continuar mastigando seu habitual cheeseburger na 5ª Avenida?

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