Terra dos Índios

Em Paralelo 10, Sílvio Da-Rin revela um País desconhecido e discute a função do sertanista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2012 | 03h10

Sílvio Da-Rin havia acabado de participar de um debate sobre seu longa Paralelo 10 na Universidade Estácio de Sá, no Rio, quando conversou com o repórter pelo telefone. Ele ainda estava impactado pela emoção de ver o interesse dos estudantes pelo assunto. É uma contradição, em termos pelo menos, com o que você vai ler ao lado, na crítica. Brasileiro não gosta de índio. Não gosta? Da-Rin agradece às políticas públicas que têm permitido a realização de documentários como o seu. Ele é realista. Sabe do pouco interesse que o mercado tem por documentários que não sejam sobre esportes ou música. As políticas são respaldo para o resultado mercadológico.

Muitos desses filmes que, no futuro, serão documentos fundamentais sobre o multiculturalismo nacional fazem 5 ou 10 mil espectadores nas salas. Mas eles necessitam dessa vitrine para se distribuir pelas outras mídias. Paralelo 10 era o filme que Da-Rin faria quando assumiu a Secretaria do Audiovisual. Ele conseguiu fazê-lo só após abandonar o ministério. Durante sua gestão, incentivou justamente as políticas públicas, lançando editais quase todos os meses, durante 30 meses de sua gestão. Ele critica o imobilismo da atual gestão no Ministério da Cultura. Lamenta quão pouco está se fazendo pelo audiovisual.

Paralelo 10 começou a nascer quando Da-Rin tomou consciência de que o Brasil é o país que mais tem povos isolados no mundo. Essas culturas de resistências desenvolveram a figura do sertanista como elemento que promove a integração. Da-Rin foi solicitado a fazer um filme sobre sertanistas, em geral. Não se interessou - até encontrar seu personagem, o sertanista João Carlos Meirelles. Encantou sua capacidade de fabulação. Mas, no período em que foi secretário, Meirelles foi a Roraima trabalhar com os Ianomâmis. Da-Rin convenceu-o a voltar à fronteira do Peru. O antropólogo Terri de Aquino, parceiro de Meirelles em oficinas, foi integrado ao projeto.

O filme não é particularmente inovador - Da-Rin é mestre por conta de uma dissertação que discute a renovação do documentário -, mas é belo. "Ninguém fica impune à imersão na floresta", ele avalia. A seus colaboradores - a fotógrafa Joana Collier e o técnico de som Edson C. -, ele instruiu que captassem a beleza e riqueza das cores e sonoridades da selva. Não exatamente renovador, mas a experiência linear de Paralelo 10, baseada nos atos de subir o descer o Rio Envira, leva aqui a construção de 'river movie'. O rio, os homens, suas histórias. Os índios. Madijas e Ashaninkas temem o contato com povos mais isolados que eles. Meirelles e Aquino vão ajudar no processo de aproximação. Os Ashaninkas falam com uma graça toda especial. Sua sonoridade é única. O filme capta isso. Expõe a biodiversidade da floresta e o multiculturalismo dos povos indígenas. "Há todo um cinema documentário que nos ajuda a redescobrir e redefinir o Brasil', diz Da-Rin. Paralelo 10 integra-se nesse movimento.

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