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Ternos, mas também violentos

Cultuada banda Black Rebel Motorcycle Club fala de pureza e barulho

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Peter Hayes

GUITARRISTA

Barulhão bom. Se há uma banda cuja reputação é imaculada no rock, é o trio Black Rebel Motorcycle Club, de São Francisco, Estados Unidos. É um dos raros nomes unânimes no cast do festival SWU, e toca no dia 14 de novembro.

O nome do grupo, Black Rebel Motorcycle Club, vem do filme O Selvagem (The Wild One, 1953), de Laslo Benedek, que lançou o mito de Marlon Brando. Tudo a ver: rock sujo feito de riffs muito simples, mas de efeitos hipnóticos. Básico instinto, como diria o Fausto Fawcett - sensações que podem passar de Stooges a Metal Machine Music, do Lou Reed. E tudo isso com apenas três figuras no palco: o baixista Robert Levon Been, o guitarrista Peter Hayes (que falou ao Estado) e a baterista Leah Shapiro, a porção Meg White do grupo.

Sempre que falam em Black Rebel Motorcycle Club, imediatamente surge uma associação com o grupo The Jesus and Mary Chain. Isso incomoda vocês?

Eles foram uma de nossas inspirações. O jeito que surgiram, sem ligação com estratégias de marketing, independentes, fazendo um rock"n"roll psicodélico, isso animou muitas bandas. Mas nós também temos influência dos Ramones, das melodias básicas dos Beach Boys. Ouvimos muitas coisas do passado para encontrar nosso futuro como uma art band.

Outra palavra também muito associada à sua música é "sombria".

Gradativamente, a gente foi evoluindo para uma música mais dark. Mas é preciso assinalar que muito da poesia mais iluminada sempre veio dos lugares mais escuros. Eu não sei explicar como isso tudo soa para nós, porque é natural. O fato é que você não pode se esconder de si mesmo. Tem de encarar sua verdade. Se consegue, isso transparece nos seus escritos.

Há também uma certa dose de poesia "suja", uma associação com poetas e escritores do underground. Vocês deliberaram no início que seria assim?

No começo, eu não sabia muito bem o que fazia. Queria apenas ter uma banda, tocar um monte. Lia e ouvia tudo que podia, e assim ia depurando as coisas. O maior desafio de quem faz arte sempre é ser compreendido. Em algum lugar do subconsciente está a essência, e enquanto você vai tocando, vai aprimorando a forma das coisas, tudo para de procurar sentido e simplesmente passa a existir. Esse componente psicodélico que apontam na nossa música, por exemplo: eu nunca fui um drogado. É que há diferentes pontos do ser humano cuja linguagem não é explícita, e carregam as forças da mudança.

Vocês têm grande reputação de clubes, mas vêm para um megafestival com milhares de espectadores. Vai ser só o trio mesmo no palco?

Sim, só nós três. É um jeito de manter uma certa pureza. É só a gente e os instrumentos, sem samples. Não sinto que seja necessário mais do que isso. Sempre tentamos obter o máximo com isso.

Vocês têm uma carreira já consolidada, e construíram sua reputação sem ter um hit sequer. Como vê esse aparente paradoxo?

É o melhor jeito de se tornar desconhecido: fazer as coisas direito (risos). Na verdade, quando a gente surgiu, houve um hype, e a gente não foi fresco. Fizemos inúmeras capas de revistas, fomos a talk shows. A gente sabe que é bom fazer as pessoas saberem que estamos por aí. Mas creio que as pessoas que gostam da gente perceberam muito cedo que nós só queremos tocar, nunca quisemos arrastar multidões atrás da gente. Acho que nosso pressuposto inicial continua firme. Nós ainda estamos tentando desaparecer, para só sobrar a música.

Tatuagem

O Black Rebel Motorcycle Club vem ao Brasil a bordo do seu quinto disco em 11 anos, Beat the Devil"s Tattoo (2010, selo próprio Abstract Dragoon). Foi gravado em estúdio da Filadélfia

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