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Terceiro tombo em Lisboa

Joelho roxo, uns machucadinhos na mão. Pode vir o quarto. Estou virando especialista

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2017 | 02h00

Quando falei em voz alta que tinha tomado meu terceiro tombo em Lisboa, percebi que era uma frase bonita. Terceiro tombo em Lisboa, lembrou-me Último Tango em Paris, por isso julguei que o assunto merecia uma atenção especial.

Preciso começar fazendo uma contundente crítica à calçada portuguesa. Sim, é belíssima, mas não funciona. Aquilo não é de Deus. O tombo, naquele piso, é tão certo quanto a neblina no outono de Londres. Já cheguei até a cogitar a existência de uma parceria público-privada entre a prefeitura de Lisboa, as clínicas de ortopedia e as lojas de sapato. Porque é assim: ou a calçada come a sola do seu sapato em 3 semanas ou ela te derruba bem antes disso.

Lembro-me bem do meu tombo inicial em Lisboa. Era meu primeiro mês na cidade, no auge do inverno. Vesti meu melhor casaco - que era uma porcaria - e calcei as maravilhosas botas de borracha que havia comprado para dias chuvosos. Caminhei satisfeita pelo Bairro Alto e fui tirar fotos no miradouro de São Pedro de Alcântara. Uma beleza. Decidi descer para a Avenida de Liberdade para almoçar.

Ao lado do miradouro fica o Elevador da Glória, ligando o Bairro Alto à Baixa de Lisboa. Mas é possível descer a pirambeira a pé. Pensei com minha simpática arrogância de moradora recente “hum, esse elevador é coisa de turista, vou a pé”. Comecei a descer a ladeira confiante como uma verdadeira lisboeta, até que dei uma escorregadinha. Não dei bola para este aviso. Segui descendo, até que veio o segundo escorregão.

Foi mais ou menos assim: a sola da bota direita deslizou meio metro pela calçada, tentei apoiar a bota esquerda no chão enquanto girava os dois braços para trás, como hélice de batedeira, mas o pé esquerdo também deslizou para frente, eu tentei me segurar num pitoco que tinha na calçada, mas minha mão escapou e eu caí de bunda, com toda classe. Fiquei dois dias sem andar. Os turistas que desceram de elevador, não.

O segundo tombo foi o oposto, no início do verão. Mal podia acreditar que eu sairia com sandálias. Escolhi sandálias baixinhas - porque já estava ligeiramente vacinada contra os hábitos traiçoeiros das calçadas da cidade - e um vestido florido. Saí caminhando pelas redondezas do Marquês de Pombal, até chegar à Rua Castilho, sempre povoada por executivos que trabalham na região.

Havia uma leve brisa. Era quase como um comercial de absorvente: vestido florido, sandálias e esta moça que vos fala caminhando sorridente e graciosa, com cabelos balançando sobre os ombros. Tudo ia bem. Ocorre que fui atravessar a rua e havia uma guia rebaixada, gerando uma sutil descida entre a calçada e o meio-fio.

O primeiro pé que escorregou para frente foi o esquerdo. Depois o direito. Mas eu recuperei o equilíbrio e pisei com o esquerdo de novo. E escorreguei de novo. E o direito. De novo. Parecia um pouco aquela dança russa na qual eles ficam chutando o ar. Na terceira tentativa eu fui para o chão. A sandália arrebentou, o vestido levantou, a dignidade voou, um horror.

O terceiro tombo foi essa semana. Caminhava apressada em direção ao Saldanha, carregando um livro de Direito do Trabalho de 15 kg, quando tropecei num pedaço de calçada quebrada. Eu, que nunca me rendo de primeira ao tombo, saí catando cavaco, pernas flexionadas e aceleradas, tronco num ângulo de 90 graus. Catei cavaco por uns 5 metros, parecia um babuíno correndo para roubar comida de turistas.

No fim, desisti. Fui de joelho no chão, tentando amparar a queda com a mão direita, como se fosse adiantar alguma coisa. Uma senhora de uns 130 anos que vinha vindo olhou para mim com muita pena. Eu sorri como quem diz “não foi nada” e está falecendo. E pronto: um joelho roxo, uns machucadinhos na mão. Pode vir o quarto tombo. Estou virando especialista. 

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